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Monday, January 5, 2015

Aquilino Ribeiro dixit: não façam das crianças tolas.


"Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que conhece o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora (...) é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural...".

Cá por casa foram ressuscitar O Romance da Raposa, que é engraçadíssimo, e a leitura do mesmo em família já valeu a um dos nossos gatos a muito justa alcunha de "bicho- palheiro". Depois, eu adoro raposas - se tivesse um animal totémico, seria esse - mas apesar de haver muitas a passar aqui à porta, ainda não tive a sorte de conseguir amadrinhar um raposinho!

 Mas voltemos às palavras do criador da Salta-Pocinhas, que vêm na linha do que disse aqui em tempos: é paradoxal ver como numa época em que as pobres crianças sabem informática, sabem línguas, têm actividades extra curriculares que nunca mais acabam, são incentivadas a participar em concursos de talentos, a usar roupas inadequadas à sua idade ou a acreditar que são índigo... por outro lado são tratadas com mimos e subserviência de pequenos Calígulas e no meio disso tudo, infantilizadas. 
É como se quisessem fazer dos pequenos gente grande quando dá jeito, e tratá-los como bebés ou patetas logo a seguir. 


A raposa Salta Pocinhas, pelo ilustrador original: Benjamim Rabier


 Há anos, numa reunião com o meu editor da altura, mostraram-me uma série de volumes infantis trazidos das feiras internacionais da especialidade, cada um pior que o outro. De livros com retrete incorporada na capa para ensinar como usar a dita cuja (e outros sobre várias funções desagradáveis do organismo, tudo em grande detalhe) a contos infantis com ilustrações que pareciam feitas pelas próprias crianças, era tudo de uma simplicidade e brejeirice de bradar.


Livros que ensinam as crianças a...bom, dispenso traduzir!

 Como se eu apontasse que os desenhos eram simplórios e pouco inspiradores, responderam-me ser tendência, que o público alvo [as crianças] se sentia mais cativado por desenhos parecidos com os que era capaz de fazer.

 E tenho visto isto em inúmeros livros para crianças, mas também em séries, discos, filmes e outros conteúdos pensados para a pequenada. A "boneca feia" de que tanto se falou aqui, segue a mesma corrente: mediania, facilidade, mediocridade, aspirar a pouco, normalização, não ofuscar o resto do grupo.


A nobre do penico explicada às crianças

 No desejo de imediatismo, de vender à pressa e de agradar a pais desmiolados ou mal preparados, esquecem o essencial: é que os pequenos são seres em formação. Por muito inteligentes ou sensíveis que sejam, ainda não sabem muito bem o que é bom para eles. Depois, por outro lado são umas esponjinhas, dispostas a absorver o que lhes captar a imaginação e - grande contradição aqui que até me confunde - muito capazes de aprender.

De nada vale deixarem-nos "expressar-se" (palavra que tal como "parentalidade" está incrivelmente na moda) se não tiverem nada na cabeça que valha a pena expressar, se as suas aptidões não forem orientadas na direcção certa.

 No mês passado visitei uma escola, num "show and tell" de dois dos meus livros preferidos - O Pequeno Lord e O Monte dos Vendavais -a crianças dos seus dez e doze/treze anos, respectivamente. A recepção foi inacreditável e não vi nenhuma criança a reclamar da "dificuldade".




 Só lendo palavras "difíceis" se expande o vocabulário, e isto por toda a vida; só tentando reproduzir desenhos elaborados e algo realistas se aprende a desenhar. O abstracto vem mais tarde - depois de tanto a criatividade como a técnica estarem devidamente estimuladas e treinadas.

 Se não se educar para a referência, o rigor, a diferenciação, a disciplina, o esforço, o espírito crítico, a imaginação e o sentido artístico, estamos a desperdiçar mentes brilhantes... 




2 comments:

Ulisses L said...

Nem mais!

Onde é que assino por baixo?

(E já agora, bom ano :) )

Imperatriz Sissi said...

Obrigada Ulisses...haja gente com as letras e tudo no lugar!

Bom Ano!

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