Recomenda-se:

Netscope

Friday, January 23, 2015

As coisas que eu ouço: vinte vezes "menino"


Há pouco, na fila da caixa da mercearia do Tio Belmiro, uma pequena dos seus vinte e poucos falava ao telefone logo atrás de mim, muito baixinho mas com tal insistência que acabei por ouvir a conversa mesmo sem me apetecer.

  Pelo sotaque, pelo aspecto (tinha uma dessas fisionomias de doce aldeã que parecem saídas de um livro: baixinha, loura, carita redonda, nariz arrebitado e faces rosadas) e pelo teor do que dizia, pareceu-me ser uma daquelas jovens que vêm estudar para Coimbra e ficam a trabalhar em casa de alguém para poupar no alojamento e ganhar algum dinheiro.

Ao que percebi, seria ama de algum pequerrucho - e tinha ficado de o ir buscar, mas dera-se uma qualquer mudança de planos, e a mãe da criança estaria a ligar para saber o que se passava.

  A conversa começou por "peço desculpa por não ter ouvido o telefone" e continuou, durante uns bons cinco minutos, com "não se preocupe que eu já vou buscar O MENINO". 

Esta última sentença repetiu-se à vontade vinte vezes, no mesmo tom educado e meigo, mas sempre com O MENINO para a frente e para trás, sem um sinónimo, sem que ela dissesse vou buscar o Menino Manuel, o Menino Alexandre ou o Menino José. Era o menino, pronto. 

Eu já conseguia prever a cadência exacta do discurso, e em que micro segundo ia cair mais um "menino"; bem me tentava distrair, mas encolhia-me instintivamente antes de cada repetição e...zás! "O MENINO"!

Não fosse a rapariga inspirar-me certa simpatia e teria ficado irritada, eu que  embirro com as pessoas que dizem "vai buscar o menino/a menina"; acho uma "bengala" mesmo feia. Para mim, menino ou menina só como forma de tratamento ("a menina não se importa? o menino não me aborreça"!, etc) e pouco mais (ex: "aquele menino é mesmo malcriado!").

 No meio daquilo acabei por ficar curiosa por saber qual seria, afinal, o nome da criança. Mas a fila andou, chegou a minha vez e ela lá continuou naquela ladainha...



1 comment:

Diana Machado said...

entre família não entendo porque é que se denominam assim, acho extremamente impessoal

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...