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Monday, January 26, 2015

D. João V, o namorado ingrato



É do conhecimento de todos que o nosso Senhor D. João V passou à História como grande namoradeiro - tendo assumido paixões como a famosa Madre Paula ou a galante Flor da Murta num país sem grandes tradições de maîtresses-en-titre, fora outras aventuras como a cigana Margarida do Monte.

 E como as paixões começam cedo, El-Rei, aos dezassete anos, já teria desencaminhado uma das damas do Paço, D. Filipa de Noronha (irmã ou filha do Marquês de Cascais, conforme as fontes) a quem iludiu com mil juras de amor e promessas. Entretanto cansou-se dos afagos da primeira namorada, 
afastando-a -chorosa e alvo da desaprovação de toda a gente - para o Convento de Santa Cruz.


De lá, a infeliz, ferida no coração e no brio, terá escrito várias cartas apelando à consciência do Monarca e aos sentimentos que professara por ela, ao mesmo tempo que rejeitava, com nobre orgulho, as "compensações" com que o Rei procurava pagar a sua honra perdida.


 Na sua colecção de biografias (1959) Américo Faria reproduz uma destas cartas - segundo D. Filipa, a derradeira. Considero-a uma belíssima missiva, cheia de dignidade feminina apesar da situação humilhante em que a autora se encontrava por ingenuidade sua, como se vê por este excerto:

" Senhor - estas letras (...) sei que hoje lhe deverão dar mais impaciência do que gosto; porém, como hão-de ser as últimas que porei aos seus reais pés, na fé desta promessa, sofra-me Vossa Majestade desafogar neste papel a justa dor que padece o meu coração, nas experiências do seu esquecimento.
 Quem diria, senhor, que um príncipe tão grande havia de ser ingrato a uma mulher do meu nascimento! Aonde estão aqueles afectos, que passaram a adorações! Recorde Vossa Majestade as finezas que me deve (...).


 Este meu engano não teve menos autoridade que a fé devida a um príncipe; e como em Portugal não era eu a primeira a quem um rei desse a mão para subir tão alto, foi fácil ao amor persuadir-se do exemplo. Presumi que fosse o esplendor da minha Casa, e fiquei sendo o escândalo de toda ela. E para que fosse sem igual a minha desventura, o mesmo Príncipe que me julgava digna da sua Coroa, pleiteia satisfazer-me com o despacho de um título...

 Ordene Vossa Majestade a quem quer que entregue todas as jóias que me ofereceu o seu amor ou (dizendo melhor) a sua grandeza, pois não quero comigo coisa que recorde a sua ingratidão ou a minha afronta. O que peço a Vossa Majestade é só licença para professar no Convento em que morreu Santa Teresa de Jesus [Espanha], que assim como o amor (...)me desterrou do Paço, quero que a sua ingratidão me extermine do Reino. Nenhum outro favor pretendo (...)que aproveitar a sua tirania para o acerto do meu engano".

Moral da história: mesmo quando uma mulher erra por se deixar levar pelas emoções, ou por fazer fé nas palavras de quem não merece suspeita, convém que não se esqueça de si mesma ou dos seus princípios...prémios de consolação, não obrigadinha.

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