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Wednesday, January 7, 2015

Das mulheres com *outro* poder



O empowerment feminino - e já anda por aí uma tentativa de tradução disto assaz esquisita, "empoderamento" - é um termo muito na moda. Qualquer cantora que empunhe cartazes, abane as ancas num palco e diga meia dúzia de lugares comuns à imprensa, tem "poder" e está  a "empoderar" as mulheres,  é assim um Jedi de saias (o que não faz lá muito sentido porque todos os Jedi usavam uma espécie de saias, but you know what I mean). Qualquer mulher que berre contra o status quo ou a tradição só porque sim, nem que isso não contribua nada para a sua felicidade ou a felicidade das outras, é "poderosa".

  Como já discuti amplamente o assunto não vou por aí hoje, mas esse outro "poder" a que me refiro é muito mais antigo, muito mais subtil e muito mais comum do que parece. E ou uma mulher nasceu com ele, ou precisa de treinar bastante para o chamar a si, porque não é coisa que se exerça da boca para fora. Como dizia Margaret Thatcher, uma das mulheres mais verdadeiramente poderosas que nos foi dado ver, "ser poderosa é como ser uma senhora - se precisa de mostrar que o é, é porque não é".

  Não acompanho de perto a carreira de Queen Lafifah, mas sempre que um filme dela passa na televisão fico colada ao ecrã. Toda ela é uma mulher forte - na beleza, nos gestos, na voz, no sorriso doce, na forma desempenada como não atura tretas de ninguém e coloca as coisas e pessoas no seu lugar para se mostrar serena logo a seguir, com cara de quem já viu muita coisa e não se impressiona com duas lérias. Não escolheu o nome "Queen Latifah" por nada: é  fácil imaginá-la como uma Rainha Bíblica, a Raínha do Sabá, ou em qualquer papel mais modesto que exija liderança - como mãe de farta prole desinquieta, governanta ou patroa de um saloon, a atirar os borrachos para o bebedouro.

É, para empregar o piropo que Carlos da Maia achava detestável, "um mulherão".

  A Mammy de E tudo o Vento Levou, interpretada pela fantástica Hattie McDaniel é, apesar de uma simples escrava, tão forte como Scarlett e a verdadeira matriarca daquela casa. Sempre pensei se a resistência de Scarlett teria alguma coisa a ver com ter sido criada por aquela mulher autoritária e bondosa, que se gabava snobemente de saber distinguir uma senhora ou um cavalheiro com um simples golpe de vista. Apesar de personagem de ficção, Mammy foi inspirada em muitas figuras reais que governavam as casas de boas famílias no Sul daquele tempo e que apesar da sua condição, exerciam funções de autoridade. 


Numa versão portuguesa temos a Ana do Vedor, robusta camponesa, lavradora próspera com a voz de comando conferida pela sua posição de ama, que entra no celeiro ou no salão com o mesmo desembaraço, não se receia de ninguém e põe em pratos limpos as situações mais complicadas da trama.

"E, ao atravessarem o quinteiro, o doutor e o abade abraçaram, cada um por sua vez, uma das moças de Ana do Vedor, que voltava da fonte com o cântaro de água.— Olá, olá, fidalguinhos! — bradou da porta da cozinha a patroa. — Já disse que isto aqui não é terra do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote como as raposas do galinheiro!?E, quando a criada chegou ao pé dela, disse-lhe com aspereza:– Tu não sabias chimpar-lhes o cântaro pela cabeça abaixo, minha maluca? Sempre vocês não sei para que querem a esperteza. Os rapazes retiraram-se rindo".

Ou a Brites de Almeida, que em Aljubarrota matou sete de uma vez.

 Mas não é preciso ser tão obviamente forte, de postura imponente, arquétipo de Mãe Primordial, Vénus de Willendorf reencarnada, ou uma Boudica, a Rainha dos Icenos que aterrorizou as tropas de Nero, para ter uma personalidade poderosa.




 A força feminina pode ser mais delicada, mais subtil e pasme-se - discreta, modesta, prudente, até obediente quando é justo dar razão aos outros. Porque uma mulher verdadeiramente feminina, que sabe fazer uso da sua feminilidade, é tão delicada mas tão forte como uma corda de piano.

 Conheço muitas mulheres destas: esposas que eram mimadas até os maridos darem à sola deixando-as a braços com contas para pagar, filhos para criar e que não tiveram outro remédio senão deitar mãos aos trabalho, até trabalho humilde, sem perderem a classe nem a beleza. Beldades que não deixam homem nenhum - ou ser nenhum - fazer delas tolas, com uma habilidade, uma calma e uma discrição que quem vê se pergunta como aquilo aconteceu. Senhoras elegantes cujas famílias perderam tudo mas não deixaram de ser quem eram e muito menos de se comportar como quem eram - com elegância, porte, delicadeza - depois de resistirem sabe Deus a quê.

E mesmo as senhoras elegantes de outros tempos aparentemente já frágeis, já velhinhas, que por mais que a Terra pule e vire não se conformam com nada disso e continuam a viver no seu próprio universo, fazendo frente a um batalhão se for preciso, como as Scorpioni imortalizadas no filme Chá com Mussolini. Para muitos, serão velhas malucas, mas é por velhas malucas dessas que o mundo não desaba mais do que já desabou...

 Em comum, todas têm um traço vincado: o de não tolerarem disparates. A capacidade de colocar os pontos nos ii e a coragem de, face à necessidade, descalçarem as luvas. Sem bravatas e sem grande alarido.




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