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Thursday, January 22, 2015

Eça de Queiroz dixit: amigas amigas, cuidados à parte



“(...)o que nas nossas raparigas mais impressiona é a fraqueza moral que 
revelam os modos e os hábitos.” 

Eça de Queiroz


Por estes dias, reparou-se cá em casa nas imagens que uma conhecida minha da faculdade publicou nas redes sociais. A pessoa em causa é aquilo que se costuma designar, vagamente, por "boa rapariga". Um pouco superficial, mas divertida e simpática. Conheço-a, embora mal, há anos, e é daquelas pessoas com quem não se perde totalmente o contacto, o que me indica que terá a sua dose de lealdade. Nada tenho que lhe apontar, a não ser coisas que não me dizem respeito: ou seja, as suas opções no que toca a companhias e à apresentação. Isto só seriam contas do meu rosário caso decidisse estreitar laços de amizade com ela ("diz-me com quem andas....").

E, por mais injusto que isso possa soar, é a razão por que não me sentiria confortável ao fazê-lo.



Às vezes podemos ter pontos em comum com algumas pessoas, até 
reconhecer-lhes virtudes, mas se o seu barómetro moral (ou tolerância moral) for muito diferente do nosso, é complicado dar-se com elas. Ou seja, se uma pessoa não vê mal nenhum em nada (ou por falta de formação, ou por ingenuidade) a proximidade é mais difícil, ou desaconselhável...ainda que pretendamos ser um bom exemplo para a amiga em causa.

 Aqui há tempos, falei nas amizades a evitar. Esta não será se calhar uma delas, mas é uma amizade a levar com ponderação.

 Como dizia D. Francisco Manuel de Melo, uma mulher que está segura da sua integridade pode achar que não há dano em ser amiga de mulheres que sejam, ou pareçam, menos bem comportadas. Porém, quem vê não distingue e toma tudo por igual.

 Eça de Queiroz foi mais longe ao retratar essa situação em O Primo Basílio, através da amizade entre Luísa e Leopoldina: a preocupação de Jorge, marido de Luísa, que berrava "tudo, menos a Leopoldina!" não se prendia apenas com a reputação da esposa, mas com o receio de que Leopoldina a influenciasse negativamente.


Luísa e Leopoldina na série brasileira "O Primo Basílio" (1988)

 Com a sua visão libertina do mundo, as suas paixões romanescas e as toilettes coleantes, Leopoldina, glamourosa, rebelde e "a mulher mais bem feita de Lisboa" parecia à amiga, que vivia uma vida pouco estimulante entre quatro paredes, entretendo-se com novelas, uma figura desses romances. E embora Luísa tendesse a desculpar as atitudes de Leopoldina  por ter um casamento infeliz "ia atrás da paixão, coitada!" aos poucos ia-se deixando contagiar pelas suas ideias. Começava a não ver mal em certas coisas e a relativizar conceitos morais básicos, como a gravidade do adultério. 

Podemos quase pensar em Luísa e Leopoldina como a Samantha Jones e  a Charlotte York do século XIX - uma abertamente escandalosa, outra aparentemente púdica mas sempre pronta a ouvir as aventuras da companheira. Tal como Leopoldina, Samantha é uma boa amiga à sua maneira: espirituosa, sincera, leal e constante, sempre disposta a ajudar. Tem também a qualidade de assumir as suas acções e as respectivas consequências (a má reputação e estigma social que afecta as duas personagens são uma constante tanto em O Primo Basílio como em O Sexo e a Cidade). Só não será a influência mais aconselhável...



 Obviamente, nem Eça de Queiroz apresenta Leopoldina como única causa da tragédia de Luísa - que é caracterizada ao logo de todo o romance como ociosa e de cabeça leve, cheia de "deixar-se ir" - nem podemos tomar o autor ao pé da letra.

 Luísa e Leopoldina são caricaturas das mulheres daquele tempo e daquele meio, que Eça procurava hiperbolizar para exemplo, mostrando-as sem auto domínio (Leopoldina) ou incapazes de pensar pela própria cabeça (Luísa).

 Esse aspecto fica claro quando Jorge pede ao melhor amigo, Sebastião, que impeça as visitas de Leopoldina na sua ausência:

"Por isso, Sebastião, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luísa! Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: "Alto lá, isso não pode ser!" Que então cai logo em si, e é a primeira!... Vens por aí, fazes-lhe companhia, fazes-lhe música, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: "Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não!" Que ela, sentindo-se apoiada, tem decisão. Se não, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: "Não te quero ver, vai-te!" Não tem coragem para nada; começam as mãos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca... É mulher, é muito mulher... ".

Tão pouco, em Sexo e a Cidade, Samantha tem culpa ou influência directa nos tropeços de Charlotte e das restantes - mas não digo que, através dos relatos das suas conquistas, não puxem umas pelas outras, nem sempre com bons resultados.

E é claro que as mulheres de hoje serão mais ocupadas (na sua maioria) e menos cabeças de vento (algumas, vá) do que na Lisboa da Belle Époque, e que a vida real não é exactamente O Sexo e a Cidade. Porém, muitas continuam a encher a mente de romances de cordel bem piores que os daquele tempo e o que é mais grave, a tomá-los a sério.

Será que as mentalidades mudaram assim tanto?

Parece-me que qualquer mulher que zele pela sua reputação - e pela firmeza das suas ideias, por muito sensata que seja - deve tomar estas amizades com um grão de sal.

 Em última análise, vícios privados, públicas virtudes: se uma boa amiga tem, digamos, uma cabeça mais aberta, pode dar-se-lhe o desconto, ensinar pelo exemplo, mas o mínimo que se lhe pede é seja discreta e caso isso seja impossível, há que limitar educadamente o convívio.

Parafraseando Eça de Queiroz, "ao menos estão salvas as aparências!".


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