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Friday, January 16, 2015

Gonçalo Fernandes Trancoso dixit: uma mulher discreta vale muito.







Já por aqui falei várias vezes de como a discrição é uma bela qualidade - e numa mulher, eu diria mesmo indispensável-  mas cada vez mais démodé. 

E ontem, ao ler o delicioso "Contos e Histórias de Provérbio e Exemplo", obra de grande sucesso do sec. XVI (assaz parecida com o Decameron) reparei em mais um elogio da discrição feminina.

Aconselho a leitura de Gonçalo Fernandes Trancoso a par com a já mencionada "Carta de Guia de Casados" de D. Francisco Manuel de Melo, um pouco mais recente mas de propósito semelhante.

Podemos então concluir que a mulher circunspecta, sensata, que "não toma brio em ver e ser vista" sempre foi digna de louvor, mas nem por isso a norma- caso contrário, não se precisaria de avisos, fábulas e exemplos.

A única diferença era que naquele tempo se podia (e devia) dizer abertamente a uma mulher faladeira, regateira e chata que falasse menos - porque ser discreta era uma qualidade a que se devia aspirar. 

Hoje nem tanto, pois confunde-se discrição com tolice, passividade, timidez, falta de espírito e não se saber afirmar. Erro crasso!

 A culpa disso é, embora não só, da cultura dominante - em que o stand up for yourself e o speak your mind estão muito na berra. Mas em boa verdade, uma mulher (ou qualquer pessoa, de resto) pode perfeitamente ser assertiva, defender-se (ou defender o seu ponto de vista) impor respeito e nem por isso deixar de ser discreta...

De igual modo, é possível ser alegre, divertida, risonha, boa companhia...sem ser espectaculosa nem espalhafatona. Discrição não significa necessariamente ser solene...nem muda como um penedo. Não creio que não dizer ai nem ui, não ter nada dentro da cabeça, fosse desejável mesmo no sec. XVI - mas abster-se de falar quando não se acrescenta nada cabe em todas as épocas.

Claro que em determinadas situações - pressa, irritação - a discrição é um desafio, mas ninguém disse que reserva e decoro são dados adquiridos. Pode-se nascer assim, ser criada assim em casa, mas nem por isso deixa de ser um exercício de disciplina diária.



 Ora, se essa disciplina afrouxa um dia por um motivo, mais tarde por outro, vai-se o auto domínio...e que exemplo haverá para dar às irmãs mais novas, primas, filhas, sobrinhas? 

Se muitas jovens são (des)educadas para falar aos guinchos, manifestar opiniões redundantes a torto e a direito, esparralhar as suas alegrias e desgostos nas redes sociais, interromper os outros - até os mais velhos - quando falam, rir como hienas, usar palavrões desnecessariamente, empregar termos brejeiros, ter atitudes imodestas e desafiantes gratuitamente, vestir de forma menos digna, etc...a causa não está só na sua geração. 

Basta ver como outras - adultas nos seus late twenties-early thirties e suas mães, produto dos anos 60/70 - pouco mais adiantam. Fazem outro tanto e não faltam as mulheres que já descrevi noutros textos, sempre ansiosas para dar a sua colherada, a sua posta de pescada, o seu parecer, invariavelmente prontas para o debate na tentativa de provar como são espertas. 

Citando de novo o autor, "o néscio calado, por sábio é contado" mas "não há néscio que saiba calar".

A modéstia, a serenidade, a gentileza, o saber aguardar a sua vez e o momento/lugar certo para se manifestar, são sinais de sabedoria e inteligência bem maiores. Só os tolos (neste caso, as tolas) contam tudo a quem quer ouvir, e até a quem não quer.

O "menos é mais" não se aplica só a modas e à maquilhagem...





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