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Friday, January 9, 2015

La Divina Contessa


A vantagem de olhar para a História com olhos de ver é uma pessoa ganhar a consciência de que nada é assim muito novo, nem muito original neste mundo do Senhor. Cada última it girl ou artista que deslumbra por aí não faz mais do que aplicar com habilidade (ainda que inconscientemente) as referências e inspirações do passado.

Quem conhece o que lá vai não se impressiona facilmente - e convém que assim seja para não pasmar de admiração perante tudo o que aparece, passando um atestado de patetice a si mesmo (a)...

Adiante, que divago: antes de Lady Gaga ser nascida ou sonhada e espantar o mundo com as suas extravagâncias, antes de o divino David Bowie e de Madonna servirem de inspiração para a Lady Gaga, quando as selfies e o instagram não eram sequer ficção científica, havia a Condessa de Castiglione.



 Não cantava, ou se cantava em privado não ficou famosa por isso, mas era uma das mais belas - e criativas - mulheres do seu tempo. Dona de uma linda figura, pálida de pele, um rosto oval e regular com olhos que mudavam constantemente "de verde para um azul-violeta intenso" emoldurado por uma luxuriante cabeleira loura...tudo isto, adicionado a certo espírito e a um atrevimento desconcertante, viria a contribuir para o fascínio que causa ainda hoje.

Nascida em Florença  em 1837, filha do Marquês Filippo Oldoini e sua mulher, a pequena Virginia Elisabetta Luisa Carlotta Antonietta Teresa Maria Oldoini fez o que era esperado das raparigas do seu tempo e do seu meio: aos dezassete anos casou, sem paixão, com o Conde de Castiglioni. Dessa união houve um filho, Giorgio, o único amor que se conheceu à beldade além do seu próprio reflexo ao espelho. 



  Por culpa dos destemperos da mulher ou da displicência do marido, porém, o casamento não funcionou e mais tarde, quando o Conde tentou tirar-lhe a criança, Virginia respondeu-lhe com um retrato onde se vestia de Medeia, faca em punho gotejando sangue, intitulado "Vingança". O filho ficou com a mãe em Paris, continuando a participar nas suas experiências artísticas.



Por volta de 1855 o seu primo Camillo, Conde de Cavour e ministro do Rei Victor Emmanuel II, conhecendo-lhe a beleza e a disposição aventureira, encarregou Virginia de uma tentadora missão: ir a Paris no intuito de seduzir a qualquer custo o Imperador Napoleão III, levando-o a apoiar a causa da unificação italiana.

Napoleão III era já casado com uma das mais deslumbrantes mulheres daquele tempo - a famosa Eugénia de Montijo que, quando o futuro marido lhe perguntou "qual era o caminho mais curto para os seus aposentos", lhe terá respondido "pela capela, senhor; pela capela!".


Eugenia de Montijo

Mas ser marido de uma Imperatriz belíssima não lhe bastava: Napoleão III era conhecido por não resistir a lindas mulheres e quanto às rivais, a Condessa de Castiglione confiava em si própria para as pôr em debandada, o que viria de facto a acontecer. Chegava mesmo a dizer a quem queria ouvir "sou igual a elas pelo nascimento, mas em beleza e inteligência sou-lhes superior!" e que se a mãe a tivesse trazido a Paris em vez de a casar com o Conde, haveria uma italiana e não uma espanhola sentada no trono. 

 Virginia contava ainda com outra vantagem: a influência habilidosa do primo, que movera os cordelinhos numa verdadeira acção de Relações Públicas para preparar a sua chegada a Paris, onde causou de imediato sensação. Depois foi só tratar de aproveitar esse primeiro impacto, fascinando a corte quer com as suas toilettes luxuosas que lhe acentuavam os dotes naturais, quer pelas máscaras reveladoras que criava para bailes de fantasia: ficou célebre o seu traje de "Romana da Decadência" (uma leve túnica que deixava à vista o colo e as pernas, acentuada por sandálias de pedrarias). Os homens perderam a cabeça e esfarraparam a etiqueta, subindo às cadeiras para melhor a apreciar.



O Imperador não podia resistir a tomar para si a mais bela e famosa das mulheres da corte. A ligação foi sempre discreta e a Condessa nunca assumiu ser amante de Napoleão III, mas outra explicação não havia para a influência que exercia junto dele - nem para o pedido de separação definitiva do marido. 
Junto das mulheres, porém, não granjeava simpatias, e não só por uma questão de ciúmes: a Condessa sofria de um narcisismo exacerbado e amizades femininas não a interessavam. A elegante Princesa Pauline von Metternich  descreveu-a da seguinte forma: "ela aparecia em reuniões como Vénus descida do Olimpo! Um cabelo maravilhoso, uma cintura de ninfa, uma carnação de mármore rosa...mas ao fim de alguns minutos começava a entrar-nos nos nervos".



O seu único interesse, além do triunfo social, era a Fotografia - de si mesma, bem entendido. A partir de 1856 começou a visitar o estúdio de Mayer Pierson, um dos maiores artistas do género durante o Segundo Império, para encomendar - sob a sua direcção - centenas de retratos extraordinários, em que aparecia com os seus trajes de fantasia, e com outros famosos (Judite, Ana Bolena...) ou da sua imaginação, em cenários fantásticos. O retratista limitava-se a captar as imagens - os ângulos, a cenografia, o tema, o figurino eram escolhidos pela brilhante modelo, que depois as enviava a amigos e admiradores conforme as conveniências. Foi esta parceria com Pierre- Louis Pierson que a tornou famosa até hoje.




 Com o declínio do Segundo Império a Condessa passou a levar uma vida mais recatada - só saía à noite, coberta por véus negros, e jamais aceitou que começava a envelhecer. Pouco antes da sua morte, em 1899, ainda se encontrou com Pierson para um último photo shoot. A ideia era apresentar a colecção de mais de 400 retratos na Exposição Universal de 1900 com o título "A mulher mais bela do mundo". Nunca saberemos se acreditava realmente na lenda que criava para si própria, ou se haveria alguma pitada de ironia nestes extravagantes devaneios.

De toda a maneira, a vida não lhe concederia este derradeiro assomo de vaidade: morreu em Novembro de 1899, aos 62 anos. Porque tudo tem limites, até a Beleza...ou porque finando-se antes, contribuiu para a aura de mistério que continua a cercá-la. Vindo da La Castiglione, tudo é possível.








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