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Wednesday, January 14, 2015

O amor de hoje e o medo de "perder tempo"


 "In such great inevitable love, often love at first sight, we catch a vision (...) as it should have been in an unfallen world. In this fallen world we have as our only guides, prudence, wisdom (rare in youth, too late in age), a clean heart, and fidelity of will....."

J.R.R. Tolkien

Actualmente é costume, perante uma relação que demora a evoluir ou a compor-se (por muito potencial que tenha) dar-se conselhos do género "se tivesse de funcionar, já tinha funcionado". É um paradoxo que hoje em dia, quando tudo está preparado para prolongar ao máximo a existência humana, as pessoas tenham muito mais medo de "perder tempo" do que  antigamente. 

São capazes de ter affairs de uma noite como se nada fosse e não consideram isso "perder tempo" mas apavoram-se perante um relacionamento mais profundo, desde que não ofereça gratificação imediata. Ser "enrolado" ou "entretido" é o terror de muita gente na era da vida longa, das redes sociais, da fast fashion, da fast food, do sucesso rápido, do "tudo para ontem". 

O sociólogo polaco  Zygmunt Bauman (cujas ideias vão dar post por aqui em breve) disse "temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis".

As pessoas vivem mais tempo mas em boa verdade não sei para que o querem, pois gostam de tudo à velocidade da luz; e apesar de terem acesso a tanta informação, não aprenderam que ninguém é perfeito. Até a pessoa mais perfeita para cada um terá falhas, o que é necessário é que essas falhas sejam compatíveis ou suportáveis com/para a cara metade.

 É claro que há relacionamentos que estão condenados à partida e é suicida investir neles (se o amor não é assim tão grande ou há maus tratos, falta de respeito, preguiça, infidelidades sucessivas, etc) mas alguns dos maiores amores são postos à prova pelas circunstâncias ou pelo destino (para quem acredita em destino, claro). 



Tenho para mim nenhum dos grandes romances do passado teria acontecido se os protagonistas pensassem como hoje se pensa - a não ser talvez Romeu e Julieta, que apaixonarem-se e casarem foi um ver-se-te-avias, e mesmo assim acho que não tinham posto os pés perante o Altar. Passavam a noite juntos e na manhã seguinte acabavam tudo via facebook porque a ex amada, a Rosaline, se lembrava de que afinal o Romeu até era giro e desatava a deixar likes e comentários sugestivos na página dele, enfurecendo a Julieta!

  As coisas em que vale a pena investir levam tempo, e ultrapassam os cenários mais assustadores - obstáculos, distância física, zangas prolongadas, meses e anos sem comunicar. Talvez o equívoco seja meu, rapariga antiquada, porque a avó sempre me martelou "o que tem de ser tem muita força e não vale a pena uma mulher afligir-se, nem fugir nem correr atrás".




Dizia isto e lembrava-me que ela e o avô tinham estado dois anos zangados, sem trocar palavra (e depois foram felizes para sempre) e que o avô dela tinha ultrapassado barreiras sociais complicadíssimas para casar com a mulher que amava...após 20 anos de espera. Eu não estaria aqui a escrever isto se não houvesse um rapaz e uma rapariga que não desistiram um do outro durante duas décadas.

 Outra das minhas bisavós passou das boas com o ciúme do marido - mas ele adorava-a. Quando lhes fizemos uma festa de já-nem-me-lembro quantos anos de casados (acho que eram sessenta ou coisa assim) pareciam tão apaixonados como dois adolescentes. Naquela época era a flexibilidade, não a espera, que se levava a mal.

 E falo disto porque ontem me relembraram a história do autor de O Senhor dos Anéis e da sua mulher, a pianista Edith Bratt. O amor entre ambos foi a inspiração para Tolkien criar duas das suas personagens mais famosas: os amantes Beren e Lúthien.



 Quando se conheceram, o tutor de Tolkien e os amigos de Edith não concordaram com o namoro: ele era mais novo do que ela, estudante com aspirações a escritor, sem grande promessas de futuro; ela era Anglicana devota,  ele um Católico fervoroso. Foram impedidos de falar por três anos, mesmo por carta, até que Tolkien atingisse a maioridade. Na noite do seu 21º aniversário, o autor escreveu à amada, reafirmando-lhe os seus sentimentos - e foi por um triz, porque Edith, julgando que ele a esquecera, estava para casar com outro.
 Quando soube que ele continuava a amá-la, Edith foi ao seu encontro (debaixo de um viaduto!) rompeu o noivado com o outro rapaz, acedeu - não sem alguma luta interior - a converter-se ao Catolicismo (sendo expulsa de casa e ostracizada pelos amigos à conta disso) e casaram.


J.R.R Tolkien e sua mulher Edith em 1966

 Pelo meio, ainda tiveram de enfrentar muitas dificuldades, nomeadamente financeiras...e a I Guerra mundial. Edith mudava-se para as imediações do batalhão do marido só para estar perto enquanto ele lutava nas trincheiras, vivendo no pavor de o perder de um minuto para o outro. O autor confessaria mais tarde que a forma como tinham ficado juntos - e permaneceram unidos até à morte - fora uma aventura romântica que podia ter corrido mal.

 Tolkien era um homem virtuoso, mas não um idealista; admitia que não há relações perfeitas e que constância e fidelidade não são dados adquiridos, mas escolhas conscientes que dão muito trabalho e exigem força de vontade. E tempo, claro.


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