Recomenda-se:

Netscope

Sunday, January 4, 2015

O heroísmo discreto da Rainha Fabíola


Sobre as desditas da Rainha Fabíola dos Belgas (que deixou este mundo no mês passado) escreveu nos anos 1960 o jornalista Pierre Daninos:

"Uma nobre de Espanha, agora rainha dos Belgas, privada não só do sol mas também da alegria de dar ao seu novo povo um herdeiro, obrigada pela sua posição a ser a primeira a segurar por cima das pias baptismais a prole continuamente renovada de uma princesa italiana instalada às portas do palácio (...). Uma rainha infeliz que se esforçava por sorrir ao segurar nos braços o filho (...) que lhe fora recusado pelo Céu (...), dominando a dor com uma nobreza de carácter que só pode ser dada pelo nascimento, é canja, na primeira página, com fotografias a cores e tudo!"


Baptizado da Princesa Astrid, sobrinha da Rainha Fabíola

 Tentar sucessivamente cumprir o seu dever de dar herdeiros ao Rei, sem êxito e simultaneamente, ver a cunhada (que viria a ser Rainha consorte nos anos 1990) rodeada de crianças, tudo isto sob escrutínio: eis um daqueles sofrimentos íntimos e devastadores que só uma mulher pode entender, medido ao milímetro pelo público e retratado em excruciante detalhe pelos jornais, que se deliciavam em retalhar a suposta rivalidade entre a majestosa Fabíola e a cunhada: a doce, irrequieta - e sobretudo, fértil- Princesa Paola


Paola e Fabíola

 Quando o Rei Balduíno se opôs terminantemente à legalização do aborto, em 1990 (decisão que muitos previam pôr fim ao seu reinado) atribuiu-se uma posição tão vincada não só à sua fé mas também à mulher que tanto amava, Católica devota e traumatizada por ter perdido cinco filhos antes do termo da gestação. Ao ser confrontada pelo marido com a possibilidade de abdicar caso se recusassem a trair as suas crenças apoiando a lei em discussão,  Fabíola terá respondido "não faz mal. Ainda sei levar a cabo um bom dia de trabalho. Tenho o meu certificado da Cruz Vermelha!".

No dia do seu casamento (1960). O vestido, de Balenciaga,
pode ser admirado no Museu do Traje, em Madrid.

Antes de casar, a futura Rainha trabalhara como enfermeira e tinha publicado  contos de fadas com assinalável êxito; a perda do  Trono pouco significava perante valores mais altos...

Graciosa na maior adversidade - mesmo em circunstâncias humilhantes para qualquer mulher, quanto mais para a consorte de um monarca - e fiel aos seus princípios até ao fim, capaz de abrir mão sem pestanejar de vaidades mundanas, a Rainha Fabíola deixou um exemplo de elegância e, mais importante, de dignidade feminina. 

Nem só de grandes feitos vive o heroísmo - por vezes, ele está em suportar com um sorriso e sem queixas as pressões, tribulações e desafios do quotidiano, por mais mortificantes que sejam.



No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...