Recomenda-se:

Netscope

Wednesday, January 21, 2015

O terrível complexo de groupie



Há dias li algures que a repórter encarregada de entrevistar o actor do filme-disparatado-do-momento se achou cheia de sorte pela honra: as amigas encheram-lhe o telefone com mensagens do tipo "You lucky b***!".

 Não consigo reprimir um abanar de cabeça quando vejo mulheres a agir assim - aos pulinhos e guinchinhos mal se vêem na possibilidade de privar com qualquer ser de calças rico, bonito ou famoso. Por mais inteligentes que sejam reduzem-se rapidamente ao estatuto de groupies, escravas ansiosas por agradar, descabelando-se a si mesmas (e umas às outras, caso haja concorrência) pela graça de um olhar do "bom partido" em causa - que tanto quanto sabem, pode ser um palerma de marca maior.

Talvez o defeito seja de quem foi educado para a nonchalance - a acreditar que o deslumbramento e o servilismo são tão feios como a arrogância e que há que saber dominar o entusiasmo; estar confortável em qualquer parte, sem subserviência nem desafio; sem se deixar intimidar, mas sem tomar excessivas familiaridades. Um pouco de fleuma nunca fez mal a ninguém. Talvez seja um defeito do hábito: só quem viu muito pouco na vida cai na ilusão de idolatrar seja quem for.

 Claro que isso, como dito aqui, causa algumas dificuldades de comunicação nos tempos que correm: a sociedade  actual, que venera a demonstração gratuita de fragilidades e emoções, não está pensada para a dignidade. Confunde contenção com frieza, serenidade e racionalidade com indiferença.



  Os sinais de alegria tornaram-se tão obrigatoriamente evidentes que mesmo o cavalheiro mais habituado às coisas boas da vida, educado à moda antiga, cansadinho da bajulação das groupies, que acha mais encanto numa rapariga misteriosa que não cede imediatamente ao seu charme nem se deslumbra com as suas atenções, pode ficar um pouco confuso (ou até magoado) se a mulher que procura cortejar não saltitar de contentamento perante cada gesto seu.

Onde está, então, o equilíbrio? Creio que reside em saber distinguir as situações: se algo é maravilhoso, pode-se dizê-lo francamente, sem histerias; se alguém - especialmente um cavalheiro bem intencionado- faz um grande esforço  para agradar, o gesto deve ser recebido com a honra que merece. O sorriso, o brilho nos olhos, um carinho dizem tudo.

O coração, para falar, não precisa de o fazer aos berros.





No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...