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Tuesday, January 13, 2015

Quando eles estão "com a Mosca". Ou pior, são a Mosca.



A Mosca é um daqueles filmes estranhos que apreciamos de forma diferente em idades diferentes. Quando eu era pequena, fazia parte dos títulos já com uma data de anos cujos vídeos eram surripiados pelos meus primos para fazermos sessões de cinema às escondidas dos adultos no rescaldo das festas de aniversário.

Sabem, o tipo de filme que já sabemos que vai ser nojento e meter medo e que entusiasma precisamente por causa disso (as aventuras de Indiana Jones, Gremlins e produções sombrias como Dark Night of the Scarecrow também entravam nas nossas brincadeiras cinéfilas; tive uma infância interessante). Sala às escuras, pipocas, refrigerantes e doces tirados da mesa e toda a gente sentada ao acaso no chão com gritos de "ewwwww, que nojo!" enquanto as raparigas trocavam impressões do que fariam no lugar da heroína.




No caso d´A Mosca, é claro que não percebíamos patavina salvo, vagamente, que era uma história de amor que corria terrivelmente mal. Éramos demasiado novas para perceber porque é que Veronica, a repórter céptica, não fugia a bom fugir assim que o namorado se começava a tornar num mutante 
repugnante e agressivo . São coisas que é preciso crescer para entender. Ou noutro ângulo se preferirem, instintos de auto preservação que se aligeiram com o crescimento, para mal dos pecados de muitas mulheres.

"Ela gostava dele" (que foi a explicação que nos deram) não esclarece porque é que continuava a gostar depois de ver o monstro que ali estava.

                              

Lá está, é um enredo com demasiadas nuances, muitas metáforas, mas é isso que permite que o apreciemos em diferentes fases da vida, com olhares distintos...e também o que o torna um clássico. A Mosca ganhou um Oscar pelos efeitos especiais, mas sinceramente - apesar de preferir a animatronics daquele tempo às maravilhas digitais de hoje - creio que é no argumento e na alegoria que realmente se destaca.

Ao revê-lo com olhos de adulta, há outras coisas que saltam à vista: o figurino de Geena Davis (com várias peças que agora estão na berra outra vez) e a compreensão da horrenda fábula de paixão condenada, a tragédia típica do love that cannot bear fruit.




Para explicar um pouco melhor, deixo uma excelente análise que encontrei quando tentava perceber se alguém tinha a mesma visão que eu. O autor identificou no argumento uma série de elementos tradicionalmente femininos (e inatos), como "estar submetida aos desejos vestigiais, ou primordiais, de ser protegida e de carregar a descendência do amado".


"The pain of being in love with a man who’s dying and/or losing his mind, and becoming ever more frightening and repulsive, instilling his survivor with feelings of guilt and shame that she’ll never shake".

É claro que na vida real não há, felizmente, relatos de homens bem parecidos e aparentemente perfeitos que se tornam num insecto gigante à moda kafkiana, mas lidar com um cavaleiro andante que revela um lado negro demasiado acentuado, isso acontece às melhores, em vários graus - e às vezes os resultados são igualmente trágicos.


 Quantos casais que pareciam lindos, uma confirmação de que a perfeição existe, não vêem a sua relação desfazer-se em mil bocados à conta de factores que ultrapassam o maior amor e boa vontade? O drama de Geena Davis no filme é muitíssimo real e retrata os casos extremos de homens que têm uma Mosca dentro de si - um monstro que destrói as suas melhores qualidade e que não conseguem controlar - e das mulheres que por mais inútil que isso seja, tentam segurar os destroços.

 Depois há os casos menos graves, mais corriqueiros, menos irremediáveis, mas bastante difíceis também: o de cavalheiros que estão com a mosca mais vezes do que seria normal (porque "moscas" todos temos, homens e mulheres, o problema está só na frequência e intensidade). 

A mosca do mau feitio, a mosca do ciúme, a mosca da desconfiança e do orgulho exacerbado, fora outras moscas que ninguém entende...

 E tal como os insectos pequenos e incómodos da vida quotidiana, estas "moscas" invisíveis sujam e estragam o melhor dos cenários e as coisas mais doces...




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