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Tuesday, January 27, 2015

Uma Rainha em Auschwitz, 70 anos depois.


"O lugar onde nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoah. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que devem e não devem ser percorridos."

Papa Emérito Bento XVI



Recordo-me de ter lido, há uns tempos, o relato de uma sobrevivente de Auschwitz em que ela recordava que nada crescia naquele inferno - não se vislumbrava uma flor, uma ave, uma borboleta. Era como se a própria natureza mirrasse instintivamente para lá do arame farpado. No dia em que finalmente viu uma mariposa incauta a esvoaçar pelo campo, a rapariga soube que escaparia - e assim foi.

A cerimónia de hoje em Auschwitz

 Muito por culpa dos volumes sobre a II Guerra que havia lá em casa - família de militares dá nisto - ganhei muito cedo o fascínio pelo tema. Até tínhamos uma colecção sobre as grandes batalhas em banda desenhada que um dia partilho aqui, e daí a interessar-me pelo Holocausto (e a ler alguns livros que me deram pesadelos durante meses) foi um passo. Para piorar tudo, acharam por bem que eu estudasse num instituto alemão, e volta não volta lá vinha o assunto à baila: os professores contavam como na sua pátria, quase não havia refeição familiar em que a guerra não viesse a propósito.

À conta de tudo isto, andei muito tempo sem poder ouvir um comboio. Os próprios nomes das localidades onde os campos de concentração ou de extermínio se situavam eram aterradores para qualquer pessoa com sensibilidade - Auschwitz, Dachau, Sobibor, Buchenwald, Treblinka! Sempre me perguntei se era coincidência ou mais um requinte de crueldade, mas eu que não tenho grande memória para nomes nunca mais esqueci Treblinka, porque alguém disse à mesa que Treblinka ainda era pior.

Em boa verdade só li o diário de Anne Frank depois de ter devorado tudo o que havia na biblioteca de mais cru sobre o assunto. Por essa altura, num ano em que a efeméride da libertação dos campos foi assinalada com grande ênfase nas escolas, foi fácil contagiar as colegas de carteira. Fizeram-se as exposições e os debates do costume e dali a nada, havia um grupinho que entendeu que queria ir a Auschwitz...mas a visita de estudo nunca passou das intenções.

S. Maximiliano Kolbe, que deu a vida em Auschwitz
para salvar outro prisioneiro.

 E foi sendo adiada até hoje, nem sei porquê. As minhas andanças levaram-me à casa de Anne Frank (quando lá fui tinha precisamente a idade dela quando morreu, e fiquei tão indisposta que nunca mais lá voltei) mas acabei por nunca ter nada que fazer na Polónia ou arredores e como (sou-vos franca) não havia outro interesse de maior em visitar o país, nunca me senti bem em ir a Auschwitz de propósito, em passeio, como turista. 

 Hoje, durante as cerimónias in loco, alguém disse que aquele não é um lugar onde ir buscar força - é apenas o memorial de um Holocausto; de um sacrifício ou expiação  que ainda ninguém conseguiu explicar nem parcialmente, a não ser que se recorra a qualquer ideia bíblica de profecia como o episódio das Filhas de Jerusalém- conceitos que por sua vez foram distorcidos como desculpa por muitos dos responsáveis pela morte de milhões de pessoas, incluindo a de Católicos como o heróico S. Maximiliano Kolbe.

Hoje também foi dito que todos os Europeus deviam ir a Auschwitz pelo menos uma vez. Há-de chegar o contexto certo, mas a cerimónia de hoje (que pode ser vista na íntegra aqui) teve um imenso poder simbólico. Há cada vez menos sobreviventes para dar o seu testemunho - há dez anos, no 60º aniversário, eram cerca de 1500, hoje foram 300 e os mais jovens estão na casa dos setenta - mas ouviram-se suficientes relatos de dignidade, e orações cristãs e judaicas numa tenda montada bem à frente da sinistra entrada de caminho de ferro. 

À falta de borboletas, houve a presença da graciosa Rainha Máxima dos Países Baixos, a provar que é possível voltar a haver beleza e esperança no mais sórdido dos lugares. 

Não consigo imaginar maior bofetada de luva branca - nem uma prova de fracasso tão redonda - a quem se lembrou de inventar Auschwitz.






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