Recomenda-se:

Netscope

Thursday, January 8, 2015

Umas linhas sobre o inevitável tema do dia.



Hoje cada um tem uma reflexão sobre este tema e nesta, para não cair num "daqui me perguntaram, daqui me responderam..." vou pôr de parte o facto de a revista satírica vítima da tragédia troçar igualmente de várias fés e as dissertações sobre a liberdade de imprensa.

 A tragédia que sucedeu em França - como outros dramas, de maior envergadura ou mais discretos que vão sendo comentados timidamente nos jornais e na blogosfera por meia dúzia que ousa rejeitar a formatação do politicamente correcto - é (digo eu e dizem mais) uma consequência do descaso ocidental (e em especial, Europeu) pela sua própria cultura.

 Por muitos anos, demasiados anos -  e apesar do crescente desrespeito de alguns "convidados" pelos valores e tradições da nossa civilização -  a palavra de ordem tem sido o relativismo, a tolerância a qualquer preço, o crescer da área cinzenta entre o bem e o mal a tal ponto que não há senão um enorme nevoeiro onde o que é justo e o que não é se esbatem. 

A Europa orgulha-se de ser aberta, laica, moderninha, queridinha, ultra permissiva com todos os pecados. Deus nos livre - salvo seja, porque até me admira que dizer "Deus nos livre" ainda não tenha começado a dar multa - de assumir que a Europa é, por cultura e tradição, Cristã, que a Fé Católica é uma pedra basilar do nosso modo de vida, porque isso ofende. E principiaram por retirar os Crufixos das escolas, para não melindrar os outros que não aprenderam ou não respeitam o adágio "em Roma, sê romano". Depois começaram a escandalizar-se com o lógico - que não é legítimo andar na rua fora do Carnaval com o rosto coberto, num país Europeu, por uma variedade de motivos puramente práticos e de segurança, independentemente da religião de cada um; que não se pode ir contra a Lei do País em causa - ou contra os Direitos Humanos - nem em família, nem entre quatro paredes, nem mesmo com a desculpa "é a cultura deles", etc, etc, ad nauseam.

 Na Europa de hoje mais facilmente se sai em defesa dos valores "dos outros" do que dos "nossos" porque isso parece, à primeira vista, uma prova da nossa superioridade. De que somos muito civilizados, mesmo quando não são civilizados para connosco. 

E quem disser "esperem lá que já é demais, estamos em nossa casa" aqui D´El Rei que é careta, racista, xenófobo ou bruto - ainda que se limite, com justiça, a insurgir-se contra as barbaridades de um bruto, xenófobo e racista que por acaso, calha pertencer a uma minoria - e que é ultra careta no que julga ser a defesa da sua cultura.

 É paradoxal que o Velho Continente, tão obcecado em parecer laico, passe a vida a dar a outra face.

 Os remorsos europeus pelas Cruzadas, pela colonização, pela Inquisição e outros episódios, que certas correntes de pensamento trataram de alimentar no inconsciente colectivo - concorde-se ou não com a legitimidade desse sentimentozinho de mea culpa - não podem sobrepor-se às mais elementares regras de hospitalidade, civilidade e convivência. Não se trata sequer de a cultura dos "outros" ser melhor ou pior do que a nossa (cá vem o relativismo). 

Trata-se apenas de estarmos em nossa casa: quem consegue viver com as regras da dita, contribui e se adapta à conduta estabelecida, muito bem; quem vem para dar incómodos, faltar ao respeito e fazer estragos, faça o favor de procurar outro lugar lá mais a seu gosto. A tolerância é como o amor ou o respeito, deixa de o ser se não for bilateral.

Tolerância assim não é tolerância - é condescendência. Não é "civilização" - é um sentimento de superioridade tão arreigado como o de antigamente, o do "coitadinhos, são selvagens, não sabem o que fazem" com consequências tanto para nós como para os membros dessas minorias que se portam de acordo mas que acabam por pagar pelos crimes de uns quantos.

 Não sei se sou o Charlie, porque não me agradam palavras de ordem criadas de véspera. Mas um bully é um bully, venha de onde vier, e sempre me ensinaram que não é ignorando, desculpando e "sendo superior a ele" que se enfrenta um rufia.







1 comment:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Escrevi um post muito parecido, em que basicamente expresso a mesma opinião. Enquanto formos complacentes, estamos cada vez mais a perder a nossa liberdade e identidade.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...