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Friday, January 30, 2015

Voar para o tecto, como "Santa" Cristina


Nunca vos apeteceu, face à maldade/parvalheira/doidice alheia, flutuar sobre tudo aquilo, isolar, voar dali para fora?

Pois na Idade Média existiu uma mulher que fazia isso mesmo: chamaram-lhe  Christina Mirabilis, também conhecida pelo curioso nome Cristina, a Espantosa ou (não oficialmente, já que não chegou de facto a ser beatificada ou canonizada) Santa Cristina, a Incrível.

Cristina nasceu na Bélgica por volta de 1150, era muito piedosa e toda a vida sofreu de ataques e convulsões. Por volta dos 20 anos de idade teve uma crise tão forte que toda a gente a achou clinicamente morta. Preparou-se o enterro e estava a vizinhança em peso no velório quando do nada Cristina, sã como se nada tivesse acontecido, salta tranquilamente do caixão.


 O povo assarapantou-se, e mais espantado ficou quando a jovem desatou a subir, a subir até ao tecto, dizendo que o fedor dos pecados daquela gente toda a incomodava horrivelmente, por isso não podia descer. Só voltou para o chão a instâncias do Padre, explicando então que enquanto estivera morta tinha visto o Inferno, o Purgatório e o Céu, e que lhe fora dado à escolha permanecer no Paraíso ou regressar à Terra para sofrer e fazer penitência pela conversão dos pecadores.


 O relato das suas visões impressionou vivamente a assistência, mas a partir daí Cristina começou a isolar-se de toda a gente, passando muito tempo escondida em buracos ou em cima das árvores, e a fazer sacrifícios ainda mais espantosos. Milagres segundo uns, verdadeiras habilidades de faquir (salvo seja) segundo outros, mas em todo o caso, proezas das quais saía incólume: atirava-se para dentro de fornos incandescentes, dava brados de arrepiar e saía de lá sem um cabelo chamuscado; mergulhava no rio gelado em pleno Inverno e deixava-se estar em oração horas, dias e semanas a fio, sem nunca adoecer; agarrava-se aos moinhos de água, lá ficava às voltas e apesar dos gritos de quem via: "a Cristina vai partir todos os ossos do corpo!" a verdade é que escapava sem uma beliscadura...



 Por qualquer motivo os cães não simpatizavam com ela; costumavam 
persegui-la e mordê-la, mas as feridas saravam instantaneamente.

Por causa de tudo isto, as opiniões dividiam-se; havia quem a  considerasse santa e quem achasse simplesmente que sofria de problemas do foro mental. Esteve internada duas vezes e acabou os seus dias num Mosteiro Dominicano onde, segundo a Prioresa, se portava com grande humildade e obediência apesar do seu comportamento invulgar.


Ainda hoje a vida de Christina Mirabilis é objecto de estudo para os especialistas em espiritualidade das mulheres medievais e vista como uma padroeira dos "lunáticos", sobretudo na sua terra natal.

Se os Santos costumam ser exemplos de nobreza, coragem, honra e abnegação - sejam os seus feitos espectaculares ou mais discretos - Cristina, a espantosa, continua pelo menos a intrigar. E a oferecer uma espectacular metáfora para os dias em que o Inferno são os outros.


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