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Thursday, February 12, 2015

A família é sagrada ( ou pessoas que não podem ser boas pessoas).



Costumo dizer amiúde a velha frase blood runs thicker than waterA ideia urbana, moderninha, amplamente divulgada, de "a família somos nós que a escolhemos" pode ter a sua parte de verdade, mas uma coisa não substitui a outra. A família, a de sangue, está acima de tudo e com a bênção de uma família vem a obrigação de lhe dar o desconto, de saber perdoar, de olhar para a floresta e não para as árvores. 

Porque a vida é demasiado curta para nos ressentirmos contra o próprio sangue e há quem só o compreenda depois de ter vivido e aprendido - geralmente, tarde demais. 

Podemos não morrer de amores por certos parentes, mas não deixar de os amar por causa disso. Tenho para mim que a noção "eu amo-te, mas não gosto nada de ti" falta a muito boa gente que diz, cheia das suas razões, que há dez anos não fala com o pai, a avó ou o irmão. Se raciocinassem "eu amo esta pessoa como família, embora não goste do seu feitio ou das suas atitudes" talvez não levassem tudo tão a peito.



É óbvio que em certos casos, se torna necessário impor limites a familiares que entram em modo "pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". E não sejamos idealistas: há alguns com quem só é possível manter uma relação civilizada a uma certa distância. Mas perder a cordialidade, dizer que se detesta alguém com quem se partilha o ADN ou falar mal da família a quem passa é um bocadinho forte.

É claro que há quem tenha sido alvo de situações extremas - abandonos e maus tratos que nos arrepiamos ao ler no jornal. Essas pessoas (e talvez só essas) são as que têm de facto motivos para querer, para seu bem, ignorar laços biológicos.


 Quando não é assim, há o dever de relativizar e ter paciência, porque erros todos cometemos e às vezes os pais e os avós fizeram o melhor que podiam e sabiam. Não é pagando o mal com o mal que se demonstra bom carácter. Pode não se ser unha com carne se o caso o justifica, mas há que ter a nobreza da cortesia e em caso de emergência, pôr as embirrações de lado.


Isto tudo para dizer que desconfio quase sempre de quem diz "eu não falo com a minha avó entrevadinha ou o meu pai tirano por isto ou aquilo porque não sou hipócrita" julgando-se o máximo. É que não é só a falta de caridade que há nisso (com uma avó entrevadinha fala-se sempre, por favor!). Se aos vinte e tal, trinta anos e mais além não se ultrapassaram os traumazinhos e rancores da infância, então o fruto não caiu mesmo longe da árvore. Quase sempre, quem o afirma é mais parecido com a família do que gosta de admitir. Critica a forma de estar dos pais ou parentes, afasta-se deles por causa disso, mas a educação lá fica e acaba por agir da mesmíssima maneira...

 Só se abre mão do clã, das raízes, se não houver outro remédio. Há que tomar cuidado com quem, por opção sua, se orgulha disso.

1 comment:

C. N. Gil said...

Pois, mas há famílias e famílias...

...infelizmente!

E muitas vezes há aquela ovelha ranhosa que só está bem a virar toda a gente contra toda a gente, todos dizem que sabem como a criatura é e que a criatura não presta mas todos, todos emprenham pelos ouvidos quando ela lhes fala...

E nestes casos, a melhor maneira de continuar a ter uma relação saudável com a família e estar a uma distância segura...
...e ainda assim, volta e meia, leva-se com os estilhaços de alguma coisa!

Tenho uma assim, por acaso! Adoro-os a todos...
...desde que não estejamos todos juntos por mais do que um almoço de aniversário daquele tio velhote e até para o ano...

Como dizia a anedota do Português o do Espanhol quando este último chama aos "Tugas" nuestros irmanos:
-Mas claro que sim. Infelizmente não escolhemos a família...

:)

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