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Saturday, February 21, 2015

A hipocrisia do "Beauty Shaming"


Há dias a internet explodiu em elogios à eterna top model Cindy Crawford, por causa de uma péssima imagem que vazou de um editorial que fez para a Marie Claire. Imagem "inspiradora!", corpo "real!" foram os louvores provocados pelo gesto de mau gosto da jornalista que divulgou o instantâneo no Twitter.

Já vi muitos backhanded compliments (insultos disfarçados de elogio) mas este leva a palma; bravo. 

É que, ora histórias: é preciso ser muito ingénuo para não ler ali a vingançazinha de todas as mulheres que desejavam ser como Cindy Crawford e nunca lhe chegaram aos calcanhares: agora és uma de nós, ora toma, dizem as feiotas ou as complexadas. Cindy Crawford pode fingir-se feliz pelo apoio, mas não creio que mulher alguma ficasse confortável ao ver um retrato em que está horrível a  circular por aí. Não me contem tretas.

O mais ridículo é que Cindy Crawford continua a ser lindíssima: as imperfeições que terá,como todas as mulheres belas mesmo no auge da juventude- se não foram aumentadas por um photoshop invertido -  são fruto da má luz, capaz de criar celulite e estrias num poste. Tenho dito mil vezes que o photoshop serve apenas para corrigir os defeitos que a câmara inventa (os tais "5 kg acrescentados pelas lentes"). Mas é muito mais reconfortante imaginar o contrário. Porém, basta ver a imagem que o marido publicou quase em simultâneo para perceber que a realidade está muito longe daquilo que o público tanto aplaudiu.

(Update: entretanto soube-se que as imagens foram mesmo manipuladas para parecerem piores, e a própria Cindy se queixou...)

A imagem da Marie Claire que se tornou viral e Cindy retratada pelo marido dias depois

Não estou a cunhar a hashtag #beautyshaming, mas quase. De um momento para o outro parece que hashtags e opiniões cada um tem as suas, mas esta ainda se utilizou pouco - se falar-se em skinny shaming aqui há tempos foi um assomo de coragem numa época em que é politicamente correcto reclamar-se contra o "fat shaming" e o "slut shaming", que será alguém dizer, actualmente, que a beleza tem o seu lugar. Se é fundamental não sei - dependerá de cada um - mas é necessária. Reflecte a harmonia do Universo e recorda-nos da perfeição divina.

  Na época "pró beleza real" em que se convencionou que a gordura exagerada - tão grave como a anorexia - também tem por força de ser formosura, o beauty shaming é uma realidade.  A beleza passou de ser uma obsessão a algo que é preciso desmistificar a todo o custo. Ou algo por que as pessoas quase precisam, hipocritamente, de pedir desculpa.

 É como se a inveja feminina tivesse, de repente, carta branca.

 Entre as feminazis que defendem o "direito" a engordar desmesuradamente, a não se maquilharem ou  depilarem e a exigir ser consideradas lindas, assumindo uma atitude "ugly is the new pretty" (não vai acontecer, esperemos) as que se esfalfam por encaixar nos padrões de beleza mas não conseguem e por isso criticam encapotadamente qualquer beldade  e as que, sem remédio, dizem "ao menos sou inteligente", a única coisa que deixou de ser considerada feia é o ressabiamento.

 Só lhes falta dizer, como a "Tia" de Joaquim Monchique, "eu detesto gente mais bonita do que eu". Seria mais honesto.

 Que me desculpem as que, nunca tendo sido elogiadas pela formosura, se consolam agora a ler odes indecentes às mulheres inteligentes. Não ser bonita não é sinónimo de miolos.

Que me perdoem as que não possuem a graciosidade de admirar - sendo que a beleza é muitas vezes, relativa - as mulheres que são mais bonitas do que elas.

 Maravilhar-se para a beleza de uma modelo ou actriz na capa de uma revista, ser capaz de apreciar a beleza alheia, é uma forma de beleza interior. Não é menos nobre do que apreciar a bondade, a inteligência, o bom trabalho ou o sucesso dos outros.

O resto, desculpem descobrir-lhes a careca, é invejinha: o mais feio dos defeitos femininos, bem pior que a celulite.





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