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Monday, February 23, 2015

A nobre arte do "é o que temos"


Uma pessoa querida tem o péssimo hábito - por um daqueles privilégios mútuos que só concedemos a quem nos diz muito - de me arreliar bastante.

 E por vezes, quando no auge da disputa me vê já em modo bombas e granadas, a resmungar mas porque é que eu aturo esta alminha, sai-se com um lacónico "é o que temos!". Como quem diz "que remédio tens!".

Isso dá-me sempre que pensar: há muitas vantagens em considerar isso do "é o que temos" no nosso dia a dia.

 Cito amiúde por aqui a perspectiva do tio Nicolau: é preciso ver o mundo e a Humanidade tal como são, - não como gostaríamos que fosse - e LIDAR COM ISSO. Idealizar pode, se aplicarmos algum sentido prático à coisa, dar-nos pistas para determinar as melhorias ou alterações que queremos introduzir.


                             

Por exemplo, se queremos remodelar uma cozinha, mudar de emprego, fazer qualquer alteração ao nosso quotidiano, é preciso considerar o que está mal e o que faz falta: acrescentar uma despensa ou um balcão, procurar um cargo mais criativo ou mais perto de casa, etc. Mas até isso estar feito, tem de se lidar com as coisas tal como são; se deixarmos de cozinhar porque a cozinha não é perfeita ou de ir trabalhar porque o contrato que temos não encaixa como uma luva nas nossas necessidades, o mal é nosso.

  Parece óbvio, mas vejo imensa gente que não pensa nisto - e acho mesmo que todos nós o esquecemos uma vez por outra.

  Há quem não consiga atrever-se a organizar o guarda roupa. Tenho ouvido clientes e amigas dizer "eu nem me atrevo a tentar pôr ordem nesta confusão, porque sei que não possuo espaço suficiente no armário. Se ao menos a minha casa fosse assim ou assado...".  Isto mesmo sem começar a seleccionar e a deitar fora o que já não interessa - operação sem a qual é impossível saber ao certo de quanto espaço dispõem. E vão adiando, sem usar um terço das coisas que compraram. Quando finalmente ousam começar, reparam que têm bastante mais arrumação do que julgavam.


 Se não organizarem de acordo com o espaço disponível aqui e agora, é garantido que mesmo que tivessem os armazéns da Vogue à disposição, nunca teriam espaço suficiente.

 Também ouço muita gente - sobretudo mulheres, que tendem a idealizar e a  ser mais perfeccionistas - se ao menos o meu namorado/marido não se comportasse assim! Se ao menos ele fizesse frito ou cozido!

 É claro que com a convivência, boa comunicação e jeitinho feminino podem introduzir-se bons hábitos e rotinas, corrigindo alguns comportamentos menos agradáveis. Mas é impossível mudar alguém completamente; tentar é um erro crasso.

 Se os defeitos de alguém são aborrecidos, mas pequenos (ser desarrumado, ser pouco atencioso...) há que pensar em formas de melhorar, tendo sempre presente "é o que temos e tenho de o aceitar como ele é!". A flexibilidade é meio caminho para a paz doméstica. Porém, se se trata de grandes diferenças em valores de base ou atitudes imperdoáveis - agressividade, infidelidade - essas coisas dificilmente têm remédio. Pensar "se ao menos"...nunca resolverá nada.

 Como dizem os americanos, ou se aguenta o calor (o que em casos assim é desaconselhável) ou se sai da cozinha.

 Há ainda muito quem não goste do seu visual e nada faça para se embelezar. Ai, que eu sou naturalmente rechonchuda e engordo até com o ar. Ai, se eu fosse mais alto (coisa que até ver, não dá para mudar) se ao menos eu fosse loura de olhos azuis/morenaça sensual/ azul às pintinhas gostaria mais de mim.

Há que substituir sempre o "se ao menos", que é deprimente e não resolve coisa nenhuma, pelo "é o que temos". É o que temos e há que trabalhar a partir daí. Como diz o senhor meu pai, "deixa lá que ninguém te dá outra!" - outro corpo, outra situação, outra vida.

 Há coisas e pessoas que podemos alterar, melhorar, mudar ou substituir, mas só se estivermos dispostos a vê-las tal e qual como são, e não como gostaríamos que fossem.

E bem vistas as coisas, um "é o que temos" não é assim tão mau. É sinal que ao menos temos alguma coisa. Nem que seja um ponto de partida.


  





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