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Sunday, February 1, 2015

Acho que Henry Ford me enganou, ou a lei do "desenrasca"





"Let me remind you that I have a row of electric buttons in my office. All I have to do is press one of them to call the person who can answer any question on any subject I wish to know, relative to the business at hand. I take care of the business, they take care of the questions. Now would you be so good as to explain why, just to answer you questions, I should have a brain stuffed with general culture, when I am surrounded by employees who can supply any information I might want to know? "

Henry Ford


Manuais de gestão, compêndios de faculdade, professores e familiares 

venderam-me por anos a ideia - lógica e sensata - de Henry Ford: qualquer coisa como "não é preciso saber tudo sobre tudo. É preciso ser bom na sua área e rodear-se de pessoas que percebam do resto". 

O saber não ocupa lugar, mas há uma linha que separa a versatilidade do diletantismo.

Porém, face ao estado das coisas - quer da Nação, quer do próprio zeitgeist - começo, com pena, a questionar a utilidade de tal filosofia: cada vez mais é preciso perceber *bastante`de tudo um pouco. Ora porque o mercado de trabalho (nacional, pelo menos) exige galinha gorda por pouco dinheiro, ora porque às vezes não se encontra mesmo quem faça em condições o que é preciso e entra-se em modo se queres ver as coisas bem feitas, trata disso tu mesma.

Pessoalmente sempre tive um leque alargado de interesses e o meu campo de trabalho/estudos assim o requeria. Porém, acho que um bom escritor, copywriter, RP ou marketeer não tem necessariamente de ser um bom designer e perceber imenso de photoshop, assim como um jornalista competente não é obrigado a ser um bom escritor de ficção (a paciência para escavar informação e a criatividade ou agilidade na prosa não caminham necessariamente juntas; há muitos exemplos que o provam).

 Do mesmo modo, um jornalista de economia poderá desembaraçar-se a escrever sobre moda ou desporto para um órgão generalista ou em caso de baixa de um colega, mas o nível de qualidade não será bem igual; um repórter ou pivot capaz não é forçosamente dotado em edição de imagem ou paginação, coisas que são quase uma arte em si mesmas; um stylist não tem de ser um designer de moda e - sinais dos tempos - nem sempre um criador de moda é um grande costureiro ( sempre achei que um designer de moda tem de ter ao menos boas bases de costura como antigamente, mas é inegável que há excelentes costureiras que não são um prodígio de criatividade); um músico genial não é automaticamente um bom produtor e por fim. uma blogger não precisará de ser uma webmaster, fotógrafa profissional, designer ou realizadora. 

Todos estes campos específicos se relacionam e quem trabalha nestas áreas tem de 
saber desembaraçar-se, perceber um bocadinho de tudo. Outra coisa não seria admissível na era dos telefones que transformam qualquer um num Spielberg do Youtube.

 Mas sejamos realistas: é impossível, a não ser que se seja um da Vinci (e Leonardo, que era o Leonardo, dispersava-se bastante e deixou muito trabalho inacabado) ser um especialista em TODAS as especificidades do seu campo de acção.

É como só poder pagar a uma doméstica para todo o serviço e esperar uma chef de cozinha digna de não sei quantas estrelas Michelin.

Talvez Henry Ford falasse por si, que tinha os recursos à mão; talvez seja defeito de educação de quem foi criado no hábito de se especializar. De acreditar que o alfaiate (ou a marca) que faz bons casacos não garante ser espectacular a criar calças. Vive-se uma época de acentuado desenrascanço, e não só para os nossos lados: vê-se pelas grandes casas de Moda que querem fazer tudo, de pijamas a perfumes passando por relógios. Pessoalmente (como outras pessoas sensatas) nunca vi grande utilidade em gastar horrores num relógio de costureiro, por exemplo.


Há delicadezas e particularidades que levam anos a dominar.


Um selo de qualidade nem sempre é universal.


Pode ser preciso uma pessoa adaptar-se a isto porque em terra de bom viver faz como vires fazer e que remédio, mas vai-me cheirar sempre ao mesmo: sovinice, dar um jeitinho, desenrascanço. A verdadeira especialização, como o verdadeiro luxo, é uma raridade cada vez maior.



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