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Sunday, February 15, 2015

But that's not the shape of my heart


Sempre adorei esta canção de Sting (mesmo na versão das Sugababes, que tinha um vídeo lindíssimo, e na adaptação de Craig David, que a cantou com o próprio Sting). Embora a letra seja algo enigmática, é mais ou menos consensual que fala de um homem (ou alguém) que apesar de sentir intensamente, tem dificuldade em expressar as suas emoções - ou que simplesmente, escolhe uma forma mais subtil de estar. 

Nos dias que correm - em que é suposto expor relações, sentimentos, fraquezas, lágrimas, defeitos, ódios de estimação, lamúrias, necessidades, fracassos - é normal que as pessoas mais discretas, tradicionais ou introspectivas sintam vontade de dizer ao mundo, espantadas e contrariadas "mas eu não sou assim! that's not the shape of my heart!". 

 E o mesmo sucede a quem não encara os relacionamentos como algo flexível e descartável, que se propõe a todos os heroísmos por um amor à moda antiga; a quem é altivo (o que nada tem a ver com arrogância) e não gosta de ser óbvio; a quem chama a si mais deveres do que direitos e espera o mesmo dos outros; ou em suma, a quem não abre mão dos seus valores e princípios em nome de ser "open minded" como manda o figurino. Num mundo em que a rebeldia, a lamechice e a transgressão se tornaram obrigatórias, o cinismo de um Oscar Wilde continua a ser um remédio surpreendentemente actual; e quase se pode dizer que a verdadeira rebeldia está em ser-se conservador, em fazer tudo ao contrário (nem que isso seja uma morte social) para conservar um bocadinho de si mesmo e da educação que lhe deram.

 Ninguém se devia envergonhar de não ir com as modas e as conveniências, ainda que estas apareçam hipocritamente baptizadas com nomes fofinhos como a falsa tolerância ou uma mente aberta (onde cabe tudo o que lhe queiram pôr). Se essa não é a forma do nosso coração, seria uma tortura limá-lo, cortar-lhe as arestas e amachucá-lo para que ele caiba no formato que está na berra. Como dizia Chesterton, "right is right even if nobody does it". Ou citando a minha  professora da primária, "se os outros se atirarem a um poço, também te atiras?".






1 comment:

C. N. Gil said...

Ora, em relação ao texto, plenamente de acordo...

...quem abre mão dos seus valores com facilidade, abre mão de si próprio! E até que ponto é que se pode confiar em alguém que abre mão de si próprio?

Já em relação à música (belíssima, diga-se) posso afirmar-te que é acerca de um jogador que não joga pelo dinheiro, nem pela afirmação pessoal, mas sim numa tentativa de encontrar a lei que rege tudo, encontrar ordem no caos "the sacred geometry of chance"! Dai ele dar as cartas "as a meditation" e o refrão que fala abertamente dos quatro naipes e dos seus significados, embora não atribua nenhum especifico às copas...

I know that the spades are the swords of a soldier
I know that the clubs are weapons of war
I know that diamonds mean money for this art
But that's not the shape of my heart

Sendo esta ultima frase o contraponto da penúltima, ou seja, joga pelo dinheiro porque precisa dele para continuar a jogar embora não seja esse o objectivo ultimo do jogo.

E entretanto, nas suas meditações acerca do jogo, vai-o comparando com a vida, onde as cartas podem ser dadas pela sorte, mas somos nós que decidimos como as jogar (é páh, agora até estive muito filosófico... LOL)

He may lay the jack of diamonds
He may lay the queen of spades
He may conceal the king in his hands
While the memory of it fades


Já agora, considero o Sting, bem como o Mike Oldfield e mais alguns, muito poucos, nomes como os grandes compositores do final do Sec XX. O Sting será, talvez, o mais "pop" deles...
...até porque coisas como o Omadawn de Mike Oldfield não são fáceis de digerir...

:)

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