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Thursday, February 26, 2015

FOMO - a doença social da década.



A expressão FOMO (Fear of Missing Out, i.e. o medo/ansiedade de ficar de fora de alguma coisa divertida) foi cunhada recentemente, mercê de Instagrams e outras engenhocas que permitem acompanhar em tempo real o último evento mais badalado (sobretudo as fashion weeks) e/ou a tendência do momento.

 Até uma blogger bicho raro como eu, que tenha PREGUIÇA de usar o Instagram (palavra, tenho preguiça - é um luxo! ) está forçosamente a par, via feeds, das novidades. Umas cativantes ou úteis, outras nem tanto.

  Esse conhecimento que até há pouco tempo só interessava a quem fazia das modas & elegâncias profissão ou no limite, aos fashionistas mais empedernidos, ficou, de repente, acessível a todos. Mesmo aos que não têm o olho treinado para distinguir as subtilezas, para separar realidade de fantasia e o que é sensato usar/comprar/levar a sério.

  Mas a verdade é que, mesmo para quem se dedica a estes temas (jornalistas de moda, marketeers e RPs da indústria,  bloggers, stylists...) embora convenha saber o que se passa (o mais recente truque de styling, a it bag, as botas must have) deixar-se entusiasmar por tudo o que aparece é péssima política. É mau para o raciocínio, mau para o estilo próprio e para a conta bancária.

 Obviamente, todos os profissionais da área (mesmo os mais blasé) dão uma olhadela aos streetstyles que pululam por aí, tal como estão atentos na rua, ou às revistas. A inspiração é uma constante e há sempre alguém que se lembra de dar um uso a certas roupas que não nos ocorreria. São os momentos "como é que eu não pensei nisto?" seguidos do clipping das "fórmulas" que queremos experimentar.

 Acontece-me muitas vezes, principalmente se alguém dá uma "volta" inesperada a coisas que calha haver no meu armário.

 Mas nada disso nos obriga à ansiedade do "tenho de usar isto", "ainda não tenho aquilo", "fulana está a ultrapassar-me" ou "comprei esta peça para reproduzir aquele oufit giríssimo que vi não sei onde e está a estação a terminar e ainda não o levei à rua".



Paradoxalmente esses complexos lembram tempos idos, quando as tendências eram mais rígidas e havia menos liberdade criativa. É um retrocesso. Karl Lagerfeld disse e muito bem que há uma distância muito curta entre ser trendy e ser pindérico. 

 A ansiedade, o deslumbramento, a constante comparação com os outros, a competição, o desejo de impressionar, de agradar, de estar actual, não podem denunciar mais insegurança. Poucas coisas revelam tanto desespero. É um estado de espírito que merece o descaso (ou até o desdém) de quem realmente dita as tendências - e boa parte desses movers & shakers, dessas it girls, 
ditam-nas inconscientemente... ao estarem-se, muitas vezes, nas tintas para o que é trendy. Pessoas que possuem verdadeiro estilo dificilmente se surpreendem ou caem num deslumbramento provinciano. Possuem a liberdade da recusa.

E não esqueçamos a outra face da moeda - das casas de moda que de forma muito inteligente "plantam" a última carteirinha da sua criação, ou o último sapatinho, na it girl ou blogger que sabem que será mais fotografada. É um win-win: a marca ganha buzz e no dia seguinte, haverá milhares de seguidoras a encomendar cegamente a mesma coisa. A it girl aumenta a sua colecção sem custos e sorri por dentro de tanta histeria... porque é a sua magia, o seu estilo, o seu gosto, que torna a peça apelativa: provavelmente, causaria o mesmo impacto com um substituto obscuro herdado da tia avó, comprado na colecção anterior ou  desencantado nos saldos.

Haverá sempre opinion makers e seguidores. Haverá sempre pessoas inspiradoras. Mas ser um seguidor cego é a antítese do estilo ou da individualidade.

Isto aplica-se a tudo, não só à moda: à vida social, aos feitos académicos, ao status, à posição profissional, às visões políticas, etc.

Ao FOMO, ao receio de ficar de fora, contrapõe-se o remédio do JOMO - Joy of Missing Out. A gloriosa alegria de ficar de fora: de faltar ao evento overrated e overcrowded. A alegria de recusar graciosamente um convite porque tem um lugar (provavelmente menos popularucho e mais íntimo) onde ir. A alegria de se abster de dar a sua opinião no assunto do momento, discutido ad nauseam nas redes sociais. A alegria de não responder a um argumento estúpido só para não ficar calado quando todos atiram o seu douto parecer. A alegria de não investir recursos num vestido ou acessório que mais trinta pessoas irão usar só para o retrato. A alegria de negar subscrever publicamente uma causa que até não lhe diz nada, só porque é suposto. 

Elegância é recusa, e isso exige personalidade. A personalidade de dizer que o Rei vai nu, que a ideia/máxima/peça do momento é uma carneirada...mas é essa rebeldia, essa independência mental, que ganha seguidores, porque a multidão tem de seguir sempre alguma coisa. Ter opinião própria e segui-la é a última rebeldia e o luxo supremo.






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