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Monday, February 2, 2015

O complexo Catarina de Aragão


Por aqui, defendo muitas vezes aquilo que me foi pintado como modelo de mulher ideal: educada, culta, discreta, bonita,  feminina mas com ânimo varonil para as adversidades, paciente, modesta, com classe mesmo nas situações mais dolorosas...

Porém, neste mundo nada é grátis e mesmo hoje, uma mulher que assim seja corre vários riscos. E um deles - um preço elevado em cima do esforço que comporta portar-se bem - é vir a sofrer do complexo Catarina de Aragão, a sábia, piedosa e tolerante primeira mulher de Henrique VIII.

Não confundamos uma mulher que sofre do complexo Catarina de Aragão com uma mulher-tapete. Não é a mesma coisa.

Uma mulher com complexo Catarina de Aragão é aquela de quem um homem se orgulha, que pode levar a toda a parte, que apresenta aos pais, em quem tem a maior confiança porque sabe que ela estará impecável, que zelará pela imagem de ambos, que terá sempre à mão o remédio para tudo - o itinerário, as aspirinas, you name it - que sabe receber, conversar, que impressionará favoravelmente os superiores dele, que nunca desce do salto, que lida habilmente com provocações ou situações embaraçosas sem fazer barulho, que tem sempre paciência para as suas tolices, que dá a outra face ou faz vista grossa, que jamais o censurará ou contrariará em público ainda que lhe apeteça deitar a casa abaixo. É uma Jackie (mesmo que em privado possa ser uma Marilyn) uma Bree das Donas de Casa Desesperadas, uma mulher de Stepford com um bocadinho mais de espírito que sabe exactamente quando se manifestar e quando entrar em modo sit there and look pretty. Se se irritar - ou antes, se manifestar a sua irritação - só ele o saberá. 

É o tipo de mulher que parece delicada mas tem uma força de aço - Catarina de Aragão fez valer os seus direitos perante o sogro em condições deploráveis e mais tarde, defendeu a sua causa valentemente. Mas foi aí que se estragou tudo. Uma Catarina é a mulher de quem um homem diz "é uma santa, não sei como me atura"...depois de contabilizar os inúmeros disparates que tem feito. Quando e se puser a mão na consciência.

Afinal, uma Catarina de Aragão é do mais conveniente que pode haver - perfeita! O protótipo da grande mulher que costuma estar por trás de um grande homem - e se calhar, com o fardo das suas próprias conquistas para carregar também, não se enganem. Mas sofre bastante.

Primeiro, porque tudo lhe é exigido. Das outras não se espera muito e às outras tudo se tolera- um comportamento menos recomendável, uma toilette menos adequada -mas ela, não. Ela tem de ser imaculada.

Depois, se ela cede à sua humanidade e por acaso recorda a um homem que pisou o risco, que ela é uma mulher, não uma santa de altar, o cavalheiro fica surpreendido, chocado mesmo. É que está tão acostumado a vê-la imperturbável, disciplinada, calmíssima, que não suporta ver o quadro estragado.

Moral da história- As Catherines Howards são um péssimo modelo e as Anas Bolenas deste mundo ficam sem a cabeça -  mas as Catarinas de Aragão têm uma cruz pesada a carregar. 



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