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Netscope

Friday, February 13, 2015

O Karma é mesmo torcidinho.


E tem um sentido de humor a tender para o ácido - mesmo quando a pessoa em causa não tem um karmazão, mas um karmazito de nada. Às vezes parece que a Lei do Retorno, ou a Justiça Divina, ou o que queiram chamar-lhe, se delicia a brincar com as teimosias, manias e embirrações de cada um... o que me faz pensar que assistir de perto à justiça poética que espera as pessoas mesmo malvadas deve ser caso para arranjar um banquinho e levar pipocas.

 O meu bisavô A. era um homem singular: tinha espírito de dandy, ou de diletante se preferirem; era louco pela mulher, mas foi uma história de amor um pouco trágica (e cá entre nós, eu sempre acudi um bocadinho por ele) sabia música, sabia escultura, não se separava por dinheiro nenhum de um velho e enorme rádio da Segunda Guerra e...se dependesse dele, era um perfeito eremita apesar de - olha o paradoxo - ADORAR conversar.


Já idoso, ainda era um homem bem parecido, muito alto, magro, de ar altivo, perfil aquilino e faiscantes olhos azuis.


Mas era tão anti social, tão anti social que quando herdou a quinta do pai mandou voltar as portas para dentro, estilo villa romana, para que quem passava na estrada não o incomodasse. Chegou ao extremo de, em plena escassez da guerra, recusar contratar gente para trabalhar as terras só para não ver vivalma. Só gostava de uma pessoa ou de outra que lá lhe caía em graça (o primeiro genro foi uma dessas pessoas, e avisou categoricamente a filha, quando quase acabou o namoro, que se preferisse casar com outro pretendente que lá andava a fazer olhinhos: "o que é mau traz para casa e o que é bom manda embora? Ponha-se na rua mais ele!").


Era assim o avô, ou gostava ou não e não havia nada a fazer, e como é de imaginar não morria de amores por crianças - apesar de ter sido, ele próprio, um verdadeiro terrorista em pequeno. Nos primórdios da aviação, influenciado pelas notícias, decidiu construir um avião de palha e "pilotá-lo" de uma oliveira gigante abaixo. A proeza custou-lhe um braço amassado. E como é preciso um para conhecer outro, todos os miúdos eram "canalha" para ele. Nós, bisnetos, lá merecíamos um bocadinho mais de consideração, mas não muita; o respeito do avô ganhava-se.


Talvez por eu ser boa ouvinte e aceder aos pedidos da avó para "ir fazer um bocadinho de companhia ao avô", o que significava escutar-lhe os monólogos sem dizer ai nem ui, talvez porque eu partia do princípio que todos os avós gostam dos netos e pronto, logo nunca me mostrava intimidada nem lhe fazia a fria cerimónia a que estava acostumado como homem do seu tempo, ele era sempre simpático comigo. Invariavelmente perguntava se eu sabia a dança do "Chico Chico" que até hoje estou para saber o que era.


Mas se a "canalha" do mesmo sangue se tolerava, o mesmo não acontecia com a garotada da vizinhança; o avô fazia justiça ao velho ditado "com a canalha, nem o diabo quis nada" e tinha aos pequenitos que por lá aparecessem a fazer barulho ou a roubar a fruta a mesma aversão que algumas pessoas têm a certa bicharada. Ou o Gigante Egoísta de Oscar Wilde. Gritava-lhes "canalha!" com um vibrato assustador e refundia-se para os seus domínios a rogar pragas.


 Podem então imaginar o seu pesadelo, a tragédia, o horror que foi, quando - oh justiça irónica, cega, poética, dura lex sed lex - a Câmara ou a Junta ou o diabo a sete entendeu que havia de construir a escola primária da aldeia num dos extremos da sua quinta.


 O pobrezito do avô protestou, barafustou, teve um tremendo desgosto, mas não houve nada a fazer. Deram-lhe um ror de dinheiro pelo terreno, mas acho que ele teria pago o dobro de boa vontade para construírem a escola noutro sítio qualquer, bem longe!


 O seu único consolo terá sido que nós, os netos e bisnetos, nos vingámos da "expropriação" fazendo grandes diabruras no recreio dessa escola onde de resto, nem andávamos. Mas isso já é outra história...







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