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Tuesday, February 24, 2015

Pensamento pouco apropriado à época, mas...


Recentemente vi um filme interessante em que ninguém sabia mentir. 

Passava-se por alguém na rua e dizia-se "que farpela horrorosa!" ou outro facto incómodo qualquer e a pessoa nem ripostava; ficava assim com cara de parva porque afinal, quem diz a verdade não merece castigo.

Imaginem acontecer isto na realidade: passar-vos uma nuvem baixa de franqueza, mandarem a boa educação às urtigas e dizerem às pessoas exactamente o que pensam delas - incluindo nas redes sociais.
 É que por muito pouco tempo que se passe nelas, acaba-se por dar com certas coisas dia sim, dia sim, que murcham os neurónios.

 Visualizem lá como seria fazerem assim um massacre por aqueles murais acima e por aqueles murais abaixo, com desabafos do estilo "não acredito que fui amiga de uma pessoa que se tornou um cliché ambulante", "se publicas mais uma frase manhosa do cifras, vou atirar ovos à tua casa", "que unhas são essas?", "cale-se que já estamos fartos de saber", "foi a última lamechice que vi desta pessoa - basta. Adeuzinho",  "get a life", "isso não só é uma foleirada como está mal escrito", "pára de deitar postas de pescada sobre tudo, vai lavar uns pratos", "isto não é o confessionário do Big Brother",  "vou desamigar a criatura acima porque não gosto de ver vulgaridades a passear-me no feed", "eu não te conheço (aos contactos que realmente só conhecemos dali e àqueles que conhecemos mas de repente parece que se tornaram numa versão apimbalhada de si mesmos) "o meu mural não é o culto de nenhuma seita para levar com frases ranhosas de gurus e esquemas de pirâmide", "se quiser um comentador político ligo a  televisão e eu não vejo televisão" e assim por diante. 

A versão mais delicada seria "até gostava de si e dá-me desgosto ver isto".



Era libertador, não era? Passavam por más pessoas e se calhar, por uns maluquinhos sem nada melhor para fazer; sujeitavam-se a levar o troco (eventualmente com um argumento estúpido pelo meio) mas o alívio era grande. 

 Porém... a boa educação, a necessidade de não ferir os sentimentos dos outros e de enfim, não arranjar conflitos gratuitos faz com que uma alma se refreie, morda a língua, mesmo quando a melhor prova de amizade seria não deixar as pessoas fazerem figuras de urso sem dizer nada

Instala-se então um laissez faire, laissez passer: o máximo que se faz é ignorar, deixar secretamente de seguir a pessoa ou no limite, exclui-la. Mas mesmo quando se põe alguém fora, raramente há a coragem de deixar uma notazinha a explicar o motivo. Isso seria admitir que somos más pessoas, ou pior: que andávamos a dar atenção aos seus disparates.

 Quer-me parecer que se instalou um novo tipo de cobardia...ou de cortesia extrema.

 Até porque tenho para mim que actualmente há quem tolere melhor um soco ou um insulto aos antepassados até à quinta geração do que a mais leve beliscadela àquilo que publica nas redes sociais. O zeitgeist anda bonito, anda.

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