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Saturday, February 21, 2015

Pierre Balmain dixit: o estilo das Portuguesas no Estoril dos anos 50

Pierre Balmain, devidamente fantasiado para o baile de máscaras (Getty)


No Carnaval do Estoril de 1959 (festa luzida que se realizou com a presença das mais distintas personalidades internacionais e uma girafa de Salvador Dali num carro alegórico) o icónico designer Pierre Balmain (cuja Casa de Moda voltou à ribalta em 2005, continuando a fazer sonhar mulheres por este mundo fora) foi um dos convidados de honra. 

Bons tempos aqueles; agora são as estrelas de telenovelas e reality shows a animar os corsos...

Cartaz do evento, via
Hospedado no Hotel Palácio, enquanto se preparava para o que viria a ser um dos célebres bailes desse Entrudo memorável, explicou à imprensa portuguesa que a moda é meramente "o resultado da civilização", que os costureiros não são mais do que "os transmissores das correntes que a inspiram" e partilhou algumas palavras sábias sobre o estilo das elegantes lusas.

"As mulheres portuguesas são das mais desejosas de seguir a moda e um factor importantíssimo permite-lhes seguir esse desejo: têm, normalmente, boa figura. Como as francesas, as italianas e as espanholas, têm um sentido mais apurado da elegância do que as anglo- saxónicas e como perfeccionistas que são, sabem 
segui-la com gosto sem no entanto exagerarem, porque são discretas por natureza (...) .

Tenho reparado que a maioria das minhas clientes vossas compatriotas tem um belo ranchinho de filhos o que de resto, me encanta. Porém, verifico com alegria que todas elas têm conservado a sua esbelteza de raparigas (...) o que me leva a crer que será um privilégio da raça ou talvez uma graça do Criador.
 Uma faceta engraçada da mulher portuguesa face à moda é a sua economia equilibrada. Não estou a chamar-lhe avarenta, note. Mas o cuidado que põe naquilo que escolhe comparando-o com aquilo que gasta (...) é mais uma prova da sua tendência para a perfeição (...)".

Acho esta análise interessantíssima - não só pelo espírito cavalheiresco demonstrado pelo couturier na entrevista, mas pela sua visão da mulher portuguesa desse tempo.

 É certo que a clientela de Pierre Balmain pertencia a um círculo específico, mas não esqueçamos que era esse meio que ditava aquilo a que o resto da população devia aspirar. Balmain via as mulheres portuguesas como esbeltas, ponderadas, disciplinadas - tanto nos gastos, como na figura - discretas e naturalmente, boas mães.

Imagem de um dos bailes (Getty)
 É verdade que uma parcela razoável das portuguesas continuará a ser assim, pelos valores que recebeu - embora o genius seculi não facilite, mesmo com recursos, ter "um ranchinho de filhos".

 Porém, ao que vejo a maioria não tem referências tão elevadas, nem se baseia em princípios como discrição, a perfeição ou a disciplina. Quantas, sem um "ranchinho" de pequenos, mas apenas um ou dois, se deixam engordar numa época em que há todos os meios à disposição para manter a figura!

 Outras, com menos recursos do que teriam as consumidoras de Balmain nos anos cinquenta, espatifam o orçamento nas últimas modas de gosto duvidoso, usando precisamente o que lhes fica mal, porque é mais apetecível dar nas vistas, ser considerada muito sexy, do que elogiada por ser discreta.

 As boas qualidades, o potencial, lá continuam: mas eu diria que se as espanholas e italianas mantiveram uma certa raça, as portuguesas perderam muito do glamour que tinham...assim como os bailes, que já não são o que eram.

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