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Friday, February 20, 2015

Sinais dos tempos: coisas que *não* mudaram desde 1960

Coleccionar livros e revistas do tempo da outra senhora, como a Modas & Bordados ou a Crónica Feminina (e lê-las com olhos de ver) dá muito que pensar. Vêem-se modelos e conselhos intemporais, outros que só se mantêm para as pessoas mais conservadoras e ainda aspectos que nos fazem sorrir, tais foram os saltos e trambolhões que a sociedade deu desde então.

 Se eu me benzo com certas "modernices" que pipocam por aí, que não farão as senhoras que escreviam ou dirigiam estas publicações e que ainda se encontrem entre nós! Espero que tenham sentido de humor e sejam pouco afectas a fanicos...


Vejamos então dois exemplos, de 1959 e 1960 (nota bene a riqueza da prosa, comparada com muito do que se lê agora).


O que não mudou nem um bocadinho


"Quando nos chegam os ecos de Paris- a capital do bom gosto - fazemos imediatamente certas comparações de ordem prática e chegamos à conclusão de que não nos seria fácil (...) encarnar a verdadeira parisiense (...). Temos à nossa frente um belo catálogo do último grito em sapataria e podemos verificar que todos os modelos (...) têm, com que maravilhoso aprumo, um saltinho de 7 ou mais centímetros  que termina em  «bico de alfinete». Este chão arcaico, que já viu cair (...) a era pombalina, arranca sem dó nem piedade as capas, os forros, os saltos, tudo, numa voragem assustadora. Os passos das elegantes são, portanto, hesitantes, receosos, desconfiados..."



in Crónica Feminina, Março de 1959

Calçada - e pior, paralelos - terríveis para os pés e para os saltos? Check; ainda continuam aí para as curvas, a arrasar a nossa delicada colecção de calçado. As vetustas ruas de Lisboa já me destruíram um par de botas de que gostava bastante (salto de madeira, ardeu!) e obrigam-me a ter muito cuidado com a forma como ponho os pés em dias de festa, principalmente se alguém tem a  bela ideia de sair do Chiado e dar uma voltinha ao Bairro Alto. A bonita alta de Coimbra...nem pensar nisso é bom, há uma rua do Quebra Costas por algum motivo. Mas essas enfim, são ruas velhas, agora até era mau mudar-se o chão. O mais cómico é que zonas renovadas, como a do Estádio de Coimbra, foram todas forradinhas a paralelos. A fase da minha vida em que morei nessas bandas foi a que mais me fez sofrer - a mim, à pedicura e ao sapateiro. Bem, eles lucravam...mas ainda a semana passada dei cabo de umas cuissardes italianas ao passar por lá (teve remédio, valha-me S. Sapateiro, mas arrepio-me toda quando tenho de contornar o edifício!).


               O que mudou da água para o vinho

(Resposta à carta de uma "apaixonada desiludida" de 16 anos , numa edição de Novembro de 1960 da mesma revista):

"Não deve tornar a escrever a esse rapaz e aconselhamo-la até a fazer o possível por esquecê-lo. Fez muito mal realmente em ter-lhe dado a sua fotografia, pois só quando um namoro inspira confiança e se têm uns laços fortes de amizade, tal se deve fazer (...)".


Primeiro, note-se o tom sensato e querido da resposta. Depois...é cómico reparar como oferecer um retrato a um rapaz era sinal de grande compromisso e intimidade. Hoje, se pensarmos não só na exposição pública de imagens que deviam ser privadas (ou de gosto questionável) nas redes sociais mas nas coisas piores que por aí se passam com rapariguinhas dessa idade -  sexting, "estrelas do facebook" e o diabo a sete - ficamos de cabeça a andar à roda com este admirável mundo novo.

  Isto para não falar nas mulheres feitas que têm idade para ter juízo e se portam mil vezes pior...soubessem as boas senhoras dos anos 60, tão bem intencionadas e decorosas, o que por aí vinha...não teriam sido tão severas com a pobre menina!

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