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Saturday, March 21, 2015

A nobre arte do "deve ser de lá"


Ontem, a propósito de um elevador que não queria funcionar, lembrei-me de uma frase da minha avozinha, essa grande filósofa. Como a geringonça não se mexesse para cima nem para baixo depois de apertado o botão, alguém perguntou se tínhamos mesmo seleccionado o andar. E eu, certíssima de o ter feito, respondi encolhendo os ombros "apertei sim- deve ser de lá". Como quem diz "deve estar avariado, a culpa não é minha". E estava certa- o elevador só andou quando quis.

A avó dizia isto do deve ser de lá porque mesmo depois de haver TV Cabo e tudo, nunca perdeu o hábito dos tempos idos em que se pagava a taxa da radiofusão e volta não volta, a transmissão era interrompida. 


A "taxa"

Ora, quando a televisão ficava preta, estilo poltergeist, toda a gente se interrogava se a maleita era do aparelho, da antena ou do próprio canal - ou seja, de lá. Se o piripaque era de lá, escusava-se de ver o que se passava com a antena, de chamar o técnico e de dar pancadinhas no televisor (ou pancadões, como o meu bisavô fez quando já não estava na sua melhor forma: ficou a pé até ao fecho de emissão e quando não deu mais nada teimou que era avaria, desancando a TV à bengalada). Não havia nada a fazer a não ser esperar que retomassem a programação.





 Hoje a TV já não tem o mesmo impacto nem avaria tanto, mas deve ser de lá continua a aplicar-se a muitas coisas na vida: quando uma pessoa faz o que pode e mais um bocadinho mas um assunto/projecto/negócio não avança, é porque enfim, deve ser de lá; o remédio é aguardar com serenidade e pelo sim, pelo não, evitar colocar todos os ovos no mesmo cesto à espera de quem não prometeu de vir.

Se alguém dá tudo por um relacionamento mas as coisas não correm de acordo, então deve ser de lá. Talvez seja hora de parar de suar as estopinhas e ver o que a outra parte faz... ou seguir em frente.

Se a cara metade, que é um amor, está de birra e não nos lembramos de ter feito nada que a ofendesse...deve ser de lá. É esperar que a emissão retome e possamos continuar a apreciar a programação quando estiverem reunidas as condições. 

 Quando uma pessoa se esforça por ser boa colega/amiga/parente e em troca  recebe ingratidão, amuos inexplicáveis, descaso ou pior, manifestações de inveja...fazer o quê? Já se sabe, é dedicar ao caso um valente deve ser de lá e não pensar mais nisso.

 O deve ser de lá é uma ferramenta excelente para curar dores de cabeça e episódios de stress escusados. Uma forma de aplicar o velho "o problema não sou eu, és tu".  Há muitas coisas que dependem de cada um... mas o que está na mão dos outros não tem remédio porque não podemos andar pelos pés dos outros nem torcer o livre arbítrio alheio. Deve ser de lá - e pronto.



  

1 comment:

C. N. Gil said...

Ghandi disse uma vez:

-Todas as preocupações são fúteis. Se estiveres preocupado com um problema que não tem resolução, por mais que te esforces e te empenhes o problema continuará por resolver. Se estiveres preocupado com um problema resolúvel, maia tarde ou mais cedo, quer te preocupes quer não, a resolução aparecerá...

Acho que ele tinha razão...

:)

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