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Sunday, March 22, 2015

Alegoria do vintage: do mundo nada se leva, mas...

Carteira Chanel 2.55 (1960s)

Qualquer aficcionada (o) de vintage sabe que as carteiras, principalmente as de griffe, são os exemplares mais difíceis de ter e cuidar. Primeiro, pela manutenção que exigem -mesmo na pele e hardware de melhor qualidade, anos de reclusão num armário poeirento, associados à falta de cuidado dos anteriores donos, deixam a sua marca. Segundo, pela quantidade de imitações que aparecem por aí - a maioria óbvia, mas outras podem enganar os incautos. A procura requer olho e dedicação, mas é sempre emocionante descobrir um "tesouro", virá-lo do avesso, apreciar os pequenos pormenores de uma qualidade que hoje já rareia, mesmo nas Casas mais requintadas.

 Sempre que junto um exemplar destes ao armário, sinto um misto de contentamento e melancolia. Fico feliz por mim, claro...mas um bocadinho triste quando a peça tem sinais visíveis de uso, porque vintage novo existe - já encontrei - mas é muito raro.

Não me entristecem os pequenos riscos ou desgastes que os cuidados não disfarçam (esses até lhe dão patine e graça) mas por pensar que algures, uma mulher de gosto apreciou muito aquele artigo, que o trouxe consigo nas suas alegrias e tristezas...e que finalmente, a peça acabou vendida ou doada. Perdida num cantinho à espera de uma coleccionadora que a fosse descobrir a uma loja especializada, angariação de fundos, venda de garagem, leilão ou flea market

Que a desencantasse no meio de muitas outras coisas largadas ao acaso, a trouxesse consigo, a avaliasse, mandasse reparar e gastasse tempo a pôr-lhe creme, a poli-la, a guardá-la carinhosamente no seu dust bag...e finalmente, que a usasse. E então a carteira volta a estar no braço ou no ombro de uma mulher. A acompanhá-la a reuniões de trabalho decisivas, a festas, a encontros românticos. Volta a ganhar memórias...vida.

Coordenados Chanel durante a Grande Depressão

Mas a voz da outra senhora que usou a carteira continua sempre lá, ecoando de outro tempo e às vezes, de outro país (sucede muito obter peças que vieram de fora, ou foram compradas em viagens ao estrangeiro no tempo em que viajar era privilégio de alguns). Se calhar foi a carteira que levou na sua Lua de Mel - ou que o mais que tudo lhe ofereceu na Lua de Mel. E talvez a tivesse posta quando chorou a perda do marido. Uma recordação da sua juventude, de quando era bela e apaixonada.

 Finalmente, a senhora lá foi - e consigo imaginar os herdeiros rapaces, ignorantes e interessados apenas no lucro (porque só assim se explica que se desfaçam de coisas destas) afilhados, parentes distantes ou criados, resmungando "o raio da velha só tinha tralha! Se nos deixasse mas era coisa que se visse..." enquanto ensacavam tudo aquilo. Já apanhei sortidos de peças que pelo tamanho e proveniência, só podiam pertencer à mesma pessoa. E isto dá-se com todo o tipo de antiguidades...

 Uma vez vi acontecer isso com um senhor militar, cujos herdeiros deixaram medalhas e outros testemunhos de valor histórico apodrecer dentro de casa, depois de limpo o que achavam que valia dinheiro. Felizmente um amigo do defunto apercebeu-se e levou tudo para um museu. Não duvido que suceda o mesmo com os objectos mais queridos de uma elegante mulher.

 Quando isto me aflige, digo cá para mim "não se apoquente, minha amiga; 
hei-de fazer honra aos seus tesouros!" e faço voto de educar as futuras mulheres da minha família para o valor das coisas, de modo a que tal não volte a acontecer.

Do mundo nada se leva; é uma grande virtude saber apreciar os bens materiais mas desfazer-se deles sem hesitação, se necessário. As jóias mais preciosas, os belos vestidos que tanto trabalho exigem para assentarem na perfeição, as peles, as marcas, tudo cá fica. Só conservamos realmente memórias. Mas isso não impede o sentido de legado. Nem que se saiba desprezar o novo, mal feito e efémero em detrimento do que pode passar de geração em geração.

Sejam obras de arte, móveis, carteiras, jóias ou coisas intangíveis - mas escritas na pedra - como a Fé, a educação e os valores de base. O descaso pelo Belo é muito triste...

3 comments:

Géraldine said...

Belíssimo texto!

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada :) Gostei de o escrever...

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