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Sunday, March 22, 2015

As coisas que eu ouço: that ain´t working, that´s the way you do it.


A famosa canção dos Dire Straits, Money for Nothing (que eu nunca me canso de ouvir) foi escrita por acaso: os elementos da banda encontravam-se numa loja de electrodomésticos a comprar qualquer coisa, e as televisões expostas estavam a passar videoclips. Vendo isto, dois trabalhadores da loja comentaram "that ain´t working, that´s the way you do it. Money for nothing and the chicks for free!".

 Ou seja, "aquilo não é trabalho- esses mariquinhas de brinco na orelha é que a levam direita: dinheiro por não fazer nenhum e miúdas à borla". Mark Knopfler ouviu aquilo para seu governo, ficou inspirado e o resto é história.

E entretanto, também eu tive uma conversa que me lembrou exactamente o estribilho rancoroso "that ain´t working, that´s the way you do it".



Como vos contei, durante as últimas semanas houve a oportunidade de trocar impressões com um bom número de pessoas interessantes. Parecia que as estrelas estavam organizadas em modo durante este período aprenderás com os outros.

 Claro que é preciso cautela com o que se aprende.  Há que fechar os ouvidos a certas coisas, observando apenas quem é um bom exemplo e se encontra tão bem ou melhor do que nós...porque dar atenção a quem não faz senão lamentar-se ou protestar tem de ser entendido como um acto de apoio ao próximo e nada mais. Se nos permitimos arrastar para um momento de "e se isto for verdade?" acabamos contagiados. E essa higiene mental não tem nada de new age; é puramente lógica. Almas lamentosas cansam, deprimem, deixam-nos irritados por simpatia.


Ora, à conversa com um grupo de pessoas dentro da minha faixa etária - todas elas trabalhadoras e bem sucedidas - foi precisamente a atitude de quem repara na boa fortuna alheia que veio a propósito. Todos os que ali estavam tinham consciência da sua felicidade por poderem fazer coisas/conviver com pessoas/realizar projectos que não são acessíveis a toda a gente. Que exigem alguns meios e um bocadinho de sorte também...e já se sabe, tudo isso gera animosidade em alguns. 

 Bem dizia Oscar Wilde "é fácil estar solidário com um amigo que caiu em desgraça, mas ficar contente com o êxito de um amigo exige uma natureza superior". 

 Mind you, eu tenho muita reserva em puxar do argumento "isso é tudo inveja!" a torto e a direito. É vaidade, pretensão e facilitismo atribuir toda a antipatia que possamos sofrer à inveja. Nem toda a gente nos inveja, quer estar no nosso lugar ou se sente ameaçada pela nossa "brilhante" presença: podem simplesmente não ir com a nossa cara (se Jesus não agradou a todos, havíamos nós de agradar?) ou zangar-se connosco, ainda que injustamente, por achar que fomos parvos e estúpidos...ou por outro mal entendido/mexerico/ acaso qualquer. É preciso ter a humildade de entender isto para não se tornar realmente num idiota digno de críticas.

 Mas é verdade que a inveja acontece, principalmente a quem não está isolado num grupo de amigos e conhecidos hermeticamente fechado, onde só entra quem está muito bem na/com a vida (ou no processo de). É por isso, mais do que por "ego inflado" ou "mania da superioridade" que algumas pessoas bafejadas pela sorte tendem a cingir-se ao convívio umas das outras: é que é muito difícil  pedir constantemente desculpas por ter sucesso. Ou partilhar o que se tem com os amigos apenas para receber em troca incompreensão ou acusações, ainda que veladas. Os amigos verdadeiros que se alegram pela felicidade dos outros são jóias raras.



 Uma vida que seja (ou pareça) glamourosa atrai a cobiça e com a cobiça vêm as desculpas de mau pagador: a do "nunca trabalhou", a do "meninos do papá" e outras piores.

 Quem diz estas coisas nunca pensa no trabalho, no foco, nas noites mal dormidas e nas dificuldades - porque todos as sofrem, sem excepção- que são precisas para ter (ou manter) um certo êxito. Até as pequenas vitórias podem ser arrancadas a ferros, mas quem está de fora vê apenas a parte boa. E como muitas vezes só pensa em dinheiro (defeito terrível) mais virulento se torna, porque o amor ao vil metal é capaz de virar uma alma do avesso.



 Pois estávamos nisto, e uma das pessoas presentes (extraordinária rapariga!) admitiu, sem falsos pudores, que era o pai que lhe oferecia tudo. Afinal, era justo porque também ela ajudava aos negócios da família. Mas também isso não vinha grátis: o "PAItrocinador" exigia, como é suposto, o retorno do seu investimento. Ou seja, sustentava-lhe o necessário até ela ser capaz de voar sozinha, o que claro, é um recurso valioso. Mas o paitrocínio não coloca ninguém no lugar certo, dizia ela: é preciso sorte. E depois disso, estar disposta a ter lata, a levar com muitas portas na cara, a ir ao tapete, a ter desgostos, a trabalhar longas e extenuantes horas (às vezes de graça) o que mesmo tendo o básico assegurado, muita gente teria pejo em fazer.

 Sorte, paitrocínio, contactos, berço, beleza, talento e outros acasos de nascença não asseguram nada em si mesmos; são, como digo muitas vezes, leves de ter e pesados de manter. O que não falta por aí é gente que tem isso tudo e fica pelo caminho ou deita a perder as benesses que recebeu. O resto depende do bom e velho desunhar-se, de sujar a camisola, de - dentro daquilo que é honroso e ético - pagar a factura. Não há ninguém tão maravilhoso que não tenha nada a provar nem de sofrer como os outros. Mas sem isso, nenhum êxito teria sabor...




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