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Tuesday, March 3, 2015

Bom terror teve a pequenada



Há dias saiu na imprensa que uma professora de inglês teve de enfrentar a ira dos pais por ter -inadvertidamente?- aterrorizado uma turma inteira ao mostrar duas curtas metragens de terror, incluindo esta:



Resultado: os pequenos, com idades compreendidas entre os oito e os dez anos, entraram em histeria. Uns «fazem xixi na cama» outros recusam-se a ir buscar a roupa ao armário com medo de monstros. Esse último medo é compreensível - eu às vezes tenho medo não de monstros, mas de não o ter arrumado na perfeição como gostaria...

Agora a sério: não conhecia o trabalho de Jonathan Button e admito que é um bocadinho sinistro. O monstro é realmente horroroso e a curta consegue criar uma atmosfera tensa, algo em que cada vez mais os filmes do género falham. Para não falar no tema mais monstruoso - por ser bem real -  que aborda: a violência doméstica.



 Then again, eu vi coisas bem piores em pequena: o Vasco Granja lá estava para nos aterrorizar ora com animações comunistas horrivelmente chatas, ora com coisas que metiam medo em qualquer parte. Uma vez saiu-se com uma caveira falante para alertar contra os perigos da guerra nuclear, teria eu uns três anos. Andei com pesadelos por sei lá quanto tempo. Depois, não havia grande critério quanto aos conteúdos em desenhos animados, marionetas ou live action que se mostravam nos magazines infantis.

Havia séries fantásticas mas que precisariam de acompanhamento parental, como esta que mostrava em grande detalhe histórias tristes ou violentas como O Rouxinol e a Rosa,  A Menina dos Fósforos e Barba Azul - estes últimos também a abordar os horrores da violência em família- ou Frankenstein. Instrutivo, mas traumaticozinho.

 Lembro-me de um sombrio filme português para crianças  - que adorava voltar a ver- em que as pessoas desapareciam por uma parede e nunca mais regressavam. Podem calcular como andei preocupada e a avisar todos lá em casa para passarem longe das paredes...Ou de uma série de marionetas, em que num episódio uma velhota levantou uma tumba para retirar de lá uma cabeça viva que lhe fazia caretas -  what the hell? E ainda esta animação sobre Hiroshima, entre muitas, muitas outras.

Isto para não mencionar livros, como os da Colecção Formiguinha, que traziam as versões não censuradas de contos como «As três Cidras do Amor» ou o deprimente «A Menina Vestida de Estrelas», quase pior do que a Menina dos Fósforos. Podem ler uma versão adoçada aqui, mas a da Formiguinha acabava mal, claro.



 O resultado é que os miúdos daquela altura desenvolviam uma grande imaginação. Certa vez, era eu muito pequena, o filho adolescente de um vizinho jurou aos pés juntos «tem cuidado que anda aí nas redondezas um cão que come as sombras às pessoas». Achei a ideia tão lúgubre que ainda hoje me faz pensar, embora dissesse para comigo que a sombra não era coisa que me fizesse assim tanta falta. O fabuloso O Labirinto do Fauno fez-me muito lembrar o que ia pela minha cabeça em pequena: imagens fantásticas, mas assustadoras.

Voltemos à notícia dos pequenos medricas: embora eu ache que conteúdos mais controversos devam ser aprovados previamente pelos pais, será caso para tanto pânico, numa época em que as crianças usam a internet e têm facilmente acesso a coisas bastante mais gráficas? Além de que oito a dez anos já não é uma idade tão impressionável como isso. Não é bom proteger demasiado as crianças: os especialistas defendem mesmo que as versões originais e horripilantes dos contos de fadas têm a sua razão de ser...

Não vou jurar que ver ou ouvir coisas destas de pequenino seja construtivo, mas é certamente muito interessante. Entre crianças um pouco assustadas por uns dias mas criativas o resto da vida e crianças superprotegidas e mal preparadas para os sustos da realidade, olhem que não sei...



1 comment:

Sérgio S said...

A minha criança curiosamente até gosta de ver bonecos tipo "a casa fantasma", e outros do género. Infelizmente não gosta de desenhos animados de princesas, barbies ou violetas. Aliás, os desenhos animados preferidos dela são do tipo surrealista a ponto de ter retirado o canal da lista de canais.

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