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Sunday, March 1, 2015

Duas Rainhas de Março: Vashti x Ester.


A Primavera sempre foi uma altura do ano marcada pela espiritualidade: os Antigos assinalavam os ritos de fertilidade e renascimento; actualmente, neste mês, enquanto os Cristãos observam a abstinência da Quaresma aguardando a alegria da Páscoa, os Judeus festejam o Purim com comida, bebida e máscaras para assinalar terem escapado à conspiração para dizimar os judeus persas que viviam  sob o domínio do Rei Assuero (geralmente identificado com Xerxes, o da Batalha das Termópilas contra os 300 Espartanos).

Como muitos se lembrarão, essa ocasião em que "o luto se transformou em alegria" sucedeu graças à Rainha Ester - apenas uma das mulheres fascinantes que aparecem no Bom Livro.


Aqui entre nós, sempre achei estranha tanta lamúria acerca do papel oprimido da mulher na cultura "Judaico-Cristã". É que basta ter lido em pequeno qualquer Meu Livro de Histórias Bíblicas Ilustrado (e conhecer muito à superfície outros textos religiosos) para ficar com uma ideia: as mulheres passam a vida ora a fazer andar o enredo, ora a salvar o dia de forma mais ou menos evidente.

 Ok, Lillith deu o pontapé de saída para a expulsão do Paraíso porque sem Lillith não haveria Eva e sem Eva...sabem o resto, mas aí temos de culpar Adão por ter acreditado que teria a vida no Éden facilitada com uma esposa mais ingénua; claro que há as vilãs, como Jezebel, as sedutoras como Salomé e Dalila; as vítimas da própria tonteria (Diná, Gomer) e intriguistas ressabiadas (Herodíade, a mulher de Putifar,etc).


 Mas depois disso temos - e só estou a nomear os exemplos mais imediatos- Judite e Jael (célebres por, respectivamente, cortarem ou espetarem a cabeça do inimigo com uma estaca!); as profetizas Débora (a juíza) e HuldaCláudia, mulher de Pilatos e única pessoa ajuizada naquela casa; discípulas e amigas de Jesus como Maria Madalena e Santa Marta; as mães cuja descendência mudou o curso da História - Raquel; Isabel, mãe de S. João Baptista;  Santa Ana; e a Virgem Maria, que com a sua obediência total à vontade Divina redime a Humanidade.

  Voltemos a Ester: a bela judia só vem a  tornar-se Rainha e a ter a oportunidade de salvar o seu povo porque a antecessora, a Rainha Vashti, foi banida por afrontar o marido perante todos os seus príncipes e os seus servos, recusando-se a aparecer "para exibir a sua beleza, usando a coroa real" quando convocada. 


Sejamos justos com Vashti - os motivos para ela se recusar a aparecer nunca ficaram claros (já lá vamos) mas uma coisa é certa: Assuero/Xerxes estava perdido de bêbedo ao fim de um evento faraónico de 180 dias (imaginem uma "Expo Pérsia" para mostrar a grandeza do seu reinado) mais sete dias de festim bem regado com, diz a Bíblia, "muito vinho real, e o beber era por lei".


 É natural que a pobre coitada tivesse pouca vontade de "exibir a sua beleza " numa sala cheia de homens alcoolizados. Até porque estava ocupada, como era sua obrigação, a dar um banquete nos seus aposentos para as mulheres do Palácio.

 Mas o Rei, com um grão na asa e aconselhado pelos sábios e pelos sete príncipes dos Persas e dos Medos que não estavam muito melhor, ficou furioso com a resposta torta e decidiu sumariamente expulsá-la- afinal, se a Rainha tratava o rei com tal irreverência, dali a nada todas as mulheres por aquelas províncias fora lhe tomariam o exemplo; uma rebaldaria.


 Por se atrever a dizer que não ao rei, Vashti tem sido, recentemente, enaltecida pelas feministas como uma mulher senhora de si, que recusou obedecer às exigências de um déspota ébrio, que colocou a sua dignidade acima da ambição e que, ao contrário de Ester, não usou ardis tipicamente femininos - a beleza, a subtileza, o silêncio - para se assegurar. Para muitas mentes modernas, Vashti é considerada  um modelo de comportamento melhor do que a heroína tradicional, Ester - discreta e aparentemente mais submissa.

Mas será sensato defender essa ideia?

 Os estudiosos têm-se debruçado sobre as motivações de Vashti sem que haja uma versão certa: uns defendem que o rei a terá mandado aparecer usando SÓ a coroa real (alguns acrescentam que Vashti era uma exibicionista useira e vezeira em fazer tal coisa e que só se recusou, naquele dia, por estar maldisposta ou com urticária); mas outros apoiam-se em fontes históricas para afirmar que tal não era possível, dados os costumes persas de modéstia feminina, quanto mais no caso de uma Rainha.

  Há também os que, sem detalhar a vestimenta ou falta dela, defendem a tese da urticária ou outro problema súbito de pele como motivo da escusa; e quem jure que a Vashti era temperamental e altiva, e que se considerava superior ao marido por ser filha de um Rei mais poderoso do que ele.


 E finalmente, existe ainda a minha versão preferida - a de que o Anjo Gabriel, precisando de pôr o plano Divino em prática para salvar o povo hebraico, teve de arranjar um estratagema para se livrar de Vashti - por isso fez-lhe nascer uma cauda (estão a imaginar? os anjos podem ser terríveis; de destruir cidades a transformar pessoas em estátuas de sal a cegá-las passando por pôr-lhes caudas, não são para brincadeiras - respeitinho!). Qualquer uma de nós teria grandes problemas em aparecer com uma cauda em público, quanto mais o resto!

De qualquer modo, Vashti desapareceu de cena, foi preciso encontrar consorte substituta para sua Majestade e Ester, dirigida pelo seu parente e tutor, Mordecai (ou Mardoqueu, mas eu acho Mordecai mais bonito) lá vai para o harém real participar numa espécie de concurso de beleza.


 Ao contrário das outras deslumbradas, que faziam a cabeça em água aos eunucos com exigências de cosméticos e se desdobravam para agradar, Ester usava o que lhe davam, foi discreta e conseguiu, pela formosura, serenidade e graça, amolecer o coração de Assuero/Xerxes.

 Obviamente, para sobreviver e salvar o seu povo, Ester teve de ser como Vashti em uma ou outra ocasião: compareceu sem ser chamada (cheia de medo, mas lá foi); deu banquetes sumptuosos; usou artimanhas para expor o conspirador que estava a tentar dizimar milhares de inocentes. Mas comparando as duas, acho que Ester ainda continua a ser o melhor modelo feminino: não é que não tivesse tanta personalidade, requinte e coragem como Vashti (pois provou ser capaz disso). Mas sabia ser calma e doce ou usar a determinação a seu favor conforme necessário -  calar, ouvir, deixar-se guiar, esperar e levantar-se apenas quando algo mais importante estava em jogo.


Ester foi determinada, mas sábia. Actualmente ser voluntariosa é apresentado como uma grande qualidade feminina, mas nem sempre isso joga a nosso favor. Vashti levou a sua avante, mas só isso.
Vashti contava apenas com os seus dotes naturais: o nascimento, a beleza e a personalidade, tudo qualidades valiosas. Mas Ester acrescentou a essas coisas o dom da temperança, prudência e a calma na adversidade, sem as quais é complicado o resto brilhar.

Há um pouco de Vashti e um pouco de Ester na maior parte das mulheres - mas se Vashti é o instinto, Ester é uma versão mais sofisticada: é a mulher com perfeito domínio de si mesma.



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