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Tuesday, March 24, 2015

Em defesa do Herói Byroniano: have you ever really loved...?



Sometimes I have the strangest feeling about you. Especially when you are near me as you are now. It feels as though I had a string tied here under my left rib where my heart is, tightly knotted to you in a similar fashion. And when you go(...) with all that distance between us, I am afraid that this cord will be snapped, and I shall bleed inwardly.

                                                Charlotte Brontë, in Jane Eyre

Sempre tive uma queda pelo Herói Byroniano - que é um tipo ligeiramente diferente do bad boy. Podia estar muito tempo a elaborar a teoria, mas digamos que o bad boy é realmente mauzinho (e dado aos mais baixos instintos) enquanto o herói byroniano apenas parece mauzinho, mas na verdade é capaz dos sentimentos mais arreigados, de constância, da maior lealdade. É o que os ingleses chamam rough around the edges: um fundo doce sob uma camada de timidez, frieza ou brusquidão.

Um herói byroniano não serve à maior parte das mulheres (embora a maioria o procure, 
confundindo-o com um bad boy) e nem todos os homens assertivos e masculinos que as mulheres buscam (tropeçando em bad boys pelo caminho) são heróis byronianos.

 Estes anti heróis não combinam com todas porque se os outros cavalheiros já são complicados, este espécime leva a palma. É dado a infinitos humores, profunda possessividade, muitas camadas para desvendar- e sente-se atraído pela mulher que é igualmente complexa. Feminina o suficiente para se harmonizar com a sua masculinidade vibrante, forte que chegue para não vergar sob a sua força. Para cada Heathcliff, tem de haver uma Catherine...porque uma Isabella falha miseravelmente. Cada Mr. Rochester precisa de uma Jane, porque as Blanches deste mundo são demasiado comuns...e nunca teriam compreensão para uma alma daquelas.


  Quando uma Catherine e um Heathcliff ou uma Jane e um Rochester se encontram, a conjugação é perfeita embora pareça demasiado intensa ou demore muito a estabilizar; todos se perguntam como é que aqueles dois se conseguem entender... mas concluem que não sendo um com o outro, não haveria paz possível. Esses amores nunca são tranquilos, mas desenvolvem o seu próprio tipo de segurança. 

Funcionam a um nível mais visceral, quase telepático.

 No entanto, é preciso tempo e maturidade para perceber que afinal, talvez o amor byroniano seja o melhor tipo de amor verdadeiro dentro de todos os amores verdadeiros. No romance, Jane Eyre dizia preferir a rudeza à lisonja;  por aqui já se comentou várias vezes que muitos "amo-tes", muitos elogios, não significam necessariamente sentimentos genuínos, tão pouco intenções firmes. Há quem diga meiguices com o coração nas mãos apenas para esquecer o que disse dali a nada. Quem muito promete, tenciona cumprir pouco. Prometer, jurar aos pés juntos, é muito fácil quando não se tem o mínimo propósito de levar a cabo tais tarefas - e desenganem-se, amor é tarefa árdua. 

 Um herói Byroniano raramente jura, raramente promete - fala uma vez e está dito, e espera que a outra parte tome isso como escrito na pedra para todo o sempre ainda que as acções pareçam demonstrar o contrário. As suas declarações de amor mais facilmente passam por um surto de ciúmes ou uma manifestação brusca de preocupação com o bem estar (eg: ela não veste o casaco e depois vem com lamúrias que adoeceu!) do que por coisinhas poéticas. Mas a poesia é como a cobertura de um bolo: se existir óptimo, mas uma má cobertura arruína tudo o resto. Entre mau romantismo, romantismo postiço ou nenhum, vive-se bem sem isso desde que duas almas sejam feitas da mesma matéria. Não é o supérfluo, dito da boca para fora num entusiasmo, que une duas pessoas. Deixe-se isso para os amores vulgares. Catherine comparava a sua relação com Heathcliff às rochas sob o chão: aparentemente rudes e estéreis, mas uma base inquebrável.

 Tenho visto alguns amores byronianos desabrochar aos tombos, mas raramente vi um morrer - e os que tiveram fim, foi com a morte física de uma das partes. Mesmo quando tudo parecia perdido, aqueles dois continuavam sempre a importar-se um com o outro. Fossem para onde fossem, cometessem os erros que cometessem, viessem separações, zangas, nunca- mais- te -falo, doenças ou ruínas, havia um fio de aço que os ligava. É o tipo de amor que deixa quem fica para trás de luto carregado, daquele luto que quem está de fora acha incompreensível e a pôr em causa a velha máxima um amor cura o outro. Estes não têm cura, nem substituto, nem são deste tempo. Nem precisam.

1 comment:

Carla Isabel said...

Tenho um amor desse género - amor byroniano! Não sabia que tinha classificação...mas é assim mesmo!

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