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Sunday, March 8, 2015

Enid Blyton: o sucesso não é desculpa.



Não posso dizer que tivesse crescido tão apaixonada pela obra de Enid Blyton como os meus pais (curiosamente preferia outros livros deles que passaram para mim, como O Pequeno Lorde) mas alguns trabalhos seus - A Trinta Diabos, por exemplo - encantaram-me.

 No entanto, nunca me tinha debruçado sobre a mulher por trás dos livros- imaginava uma amorosa senhora inglesa no seu casarão de campo, numa paz doméstica perfeita, e pronto. Por isso fiquei espantada  quando esta semana vi um filme sobre a sua vida, em que a escritora é interpretada por Helena Bonham-Carter, actriz que adoro. 

(Quem tiver  maquineta do tempo  ainda pode ver esta produção da BBC, porque passou na TVI e no canal Cinemundo). Fiquei tão desagradada pela forma de estar da autora que pesquisei mais um bocadinho, a saber se seria mesmo verdade ou uma licença poética demasiado ousada. E parece que mais coisa menos coisa, a BBC não inventou muito...


 Uma mulher egocêntrica, totalmente voltada para o seu mundo de fantasia e obcecada pela fama, que escolhia homens fracos para melhor os emascular; uma celebridade com um sentido de marketing à frente do seu tempo, que organizava jantarinhos com os seus pequenos fãs a que as próprias filhas só podiam assistir pelo buraco da fechadura; adúltera e filha ingrata, voltou as costas à mãe e aos irmãos. Idolatrava e idealizava o pai, que a abandonou em pequena, mas nem sequer assistiu ao seu enterro. No dia em que o cão que adorava morreu, escreveu na sua revistinha (o equivalente a um blog nos dias de hoje) "amiguinhos, o cão nunca esteve tão traquina". Quão alucinado é isso? A única coisa que tinha importância para Enid Blyton era ela própria. A família só lhe servia para divulgar nos média a  imagem de mãe extremosa e esposa amantíssima. O melhor é verem, para ficarem com uma ideia...

 Mesmo dando desconto à relação mais distante entre pais e filhos naquele tempo e naquele meio - a ideia de um colégio interno nunca me chocou muito, embora não me encantasse - a escritora, tal como ali é retratada, é um estereótipo da mulher de carreira cruel.



Houve quem classificasse o filme como "sexista", dizendo que uma mulher que se dedique de corpo e alma aos seus projectos é sempre criticada, o que não acontece com um homem, mas...acreditem, já conheci mulheres exactamente como Enid Blyton. Que queriam o melhor dois dois mundos - uma família de capa de revista e uma carreira triunfante - mas se portavam em casa como verdadeiras generalas, com maridos submissos e filhos negligenciados. O epíteto da, com licença da palavra, BITCH que dá mau nome às mulheres de sucesso...

Como tenho dito muitas vezes, creio que nada disto é necessário. É preciso maldedezinha, egoísmo e frieza para ser assim - ou falta de uns bons correctivos em pequena e mais uns "ponha-se no seu lugar" pela vida fora.

Quem usa o sucesso como desculpa para proceder como uma monstruosa galinha choca, devia pensar melhor...(e aqui entre nós, sempre achei que havia algo de sinistro no Noddy...agora percebo!).

2 comments:

Sérgio S said...

Eu lembro-me de ler os livros da senhora. Antigamente uma das poucas formas de entretenimento noturno era ler... Aliás, tenho as primeiras edições dos livros dela em Português. Tudo bem guardado. Afinal a senhora foi uma percursora do estilo "jet7 de capa de revista". Mas sabes que a minha experiência é a de que muitas mulheres de "sucesso", que ascendem a lugares de chefia no mundo de homens, não o conseguem pelo contraste das valências tipicamente femininas, mas antes por serem mais "homens que os homens", no mau sentido da palavra. Mas também já conheci pessoas de muita elegância.

Imperatriz Sissi said...

É exactamente isso. Pela minha experiência, mulheres nessas posições ou são excepcionais ou do piorio.

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