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Monday, March 30, 2015

Pequeno tratado do dia: o feio defeito da "garridice"

Ilustração de "As Preciosas Ridículas" de Molière

Garridice

s.f. Qualidade do que é garrido; apuro excessivo no vestuário.

Sinónimo de garridice: coquetismo, faceirice e louçania 


Os velhos compêndios de educação ( e os guardiães dos respectivos princípios ou seja, pais e avós mais tradicionais) reprovavam veementemente a garridice. Confundida muitas vezes com vaidade feminina - ou conotada erradamente com o amor à elegância - a garridice está associada à pretensão, afectação de maneiras, brejeirice, tafularia (ou ostentação) e à coquetterie demasiado evidente.

Quem recebeu esse tipo de princípios lembrar-se-á decerto de ouvir em casa coisas como "uma rapariga não deve ser coquette" ou pior, "levantada", que é um superlativo insultuoso de "estouvada". Tudo falhas de carácter que têm consequências desagradáveis, logo convém a pais e educadores limar desde cedo...

A garridice é um pouco disso tudo, e tem uma particularidade:

Nunca um defeito esteve tanto na moda e ao mesmo tempo, tão fora de moda.

É que a garridice está por todo o lado, mas ninguém fala nela. Ou pelo menos, ninguém a trata pelo nome. O termo caiu em desuso, mas poucas vezes terá sido tão necessário empregá-lo.

 Nos nossos dias a garridice será mais brutalmente classificada como "attention whoring" e é um mal que afecta tanto pré adolescentes como mulheres feitas. O extremo da garridice actual manifesta-se no exagero de selfies e trajes demasiado reveladores ou poses pouco dignas, em conversas namoradeiras ou provocantes em público (chega a ser chocante ver como algumas meninas que mal saíram da infância falam sem que ninguém as corrija) ou na ostentação do "vejam o que comprei".


 Porém, não é preciso fazer coisas tão óbvias e de gosto duvidoso para "escorregar" da elegância para a garridice: é fácil a qualquer mulher que se orgulhe da sua aparência e faça por andar bem e à moda, mesmo moderadamente, cair na tentação de "dar nas vistas" ou de "ofuscar" fulana e sicrana por algum motivo. Mais subtil ainda, não basta preferir roupas discretas e de bom gosto para evitar a garridice, porque ela também se manifesta nas palavras, actos e pensamentos...e pode surgir por capricho, insegurança ou distracção. Como sem elegância interior não pode haver elegância alguma, a vigilância deve ser constante. 

 Então como se foge a tal armadilha na época do "eu, eu, eu", das mulheres super poderosas e super confiantes? Como sempre, procurando o equilíbrio, chamando a si mesma toneladas de bom senso e fazendo diariamente um exame de consciência e de aparência. O maior erro é apontar os defeitos nas outras sem olhar seriamente para si e pensar que se sabe tudo.


  Na aparência:  tão ou mais importante do que ter um personal stylist, boas fontes de inspiração (de revistas e sites fiáveis) e/ou muito sentido de estilo, é ouvir a nossa consciência, mas jamais achar que só a nossa opinião vale. Se uma toilette nos desperta dúvidas - por ser reveladora, ostensiva ou literalmente garrida demais - por algum motivo é. Em vez de despir a roupa em público (o que muita gente faz, salvo seja) uma mulher deve despir-se do conceito demasiado alto de si mesma.
 Não custa nada descer do pedestal e pedir a opinião a pais e avós (ou outras pessoas sensatas) e ao pai/cara metade/irmão, pondo de parte a ideia de que tal parecer será automaticamente "careta" e "antiquado". 

Pessoas mais velhas possuem geralmente uma noção melhor da elegância clássica os homens têm uma visão concreta do certo e do errado onde as mulheres podem errar por ingenuidade.

 Escusado será dizer ainda que a fórmula mais segura será procurar a correcção e harmonia no vestuário, privilegiando a qualidade em detrimento da vontade de ser notada. Abandone-se o instinto de competição, que é o pior inimigo das mulheres. É certo que situações de tensão acontecem e usar algo que transmita confiança é um grande remédio, mas há formas razoáveis de o fazer sem cair no  ridículo. O que é digno de nota destaca-se sem esforço e pelos melhores motivos...

Há que encontrar fórmulas de styling, cabelo e maquilhagem que resultem para que estar apresentável surja facilmente e não seja uma fonte de obsessão constante. 


Nas atitudes: um dos principais (e mais esquecidos) requisitos da elegância é colocar-se em último lugar. Se não pensarmos demasiado bem de nós, dificilmente seremos beliscadas pelas tolices dos outros. Procure-se então ser prestimosa, amável, serena e indulgente com as falhas alheias. Numa festa, ocupemo-nos de ver se a convidada idosa precisa de alguma coisa, se a recém chegada tímida se sente à vontade, etc...e automaticamente deixaremos de nos ralar com a nossa aparência, com a reacção de quem olha ou de cair em comparações com sicrana. A garridice nasce do desejo de importância e da ansiedade em ser notada; procuremos ajudar ou pelo menos, não ser pesadas a quem está, em vez de criar mau ambiente com picardias ou ressentimentos passados. Desculpemos as patetices alheias para sermos nós desculpadas, em vez de encarar cada "desconsideração" como crime de lesa majestade...
 Quem se ofende muito ou procura impor-se a todo o custo desdobra-se por agradar ou ofuscar, e é pior a emenda que o soneto. A discrição cabe em toda a parte, já o espavento pode cair mal.

  Perante irmãs, primas e sobrinhas mais novas, esforcemo-nos por ser naturais, despretensiosas, com um discurso articulado e livres de quaisquer comportamentos brejeiros, de modo a dar um bom exemplo.

Por cada revista de moda que lermos, ou qualquer leitura leve, façamos por contrabalançar com o estudo de um assunto complexo ou elevado, de modo a exercitar tanto a fantasia como o raciocínio - sem no entanto fazer alarde da grande inteligência e cultura, o que pode ser outra forma de garridice e dar uma imagem ainda mais pateta.

 E naturalmente, refreemos a tentação da gabarolice ou de começar toda e qualquer frase com um "eu isto, eu aquilo...".

Pondo em prática a capacidade de observação, torna-se mais fácil dominar essa desagradável inclinação feminina de que quase ninguém está livre...








2 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Mas o que mais existe por aí são gabarolices vãs. As pessoas estão cada vez mais auto centradas e convencidas que o mundo gira à volta delas próprias. Tanta gente deveria ler o teu blog...

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Bomboca :)

São pequenos defeitos que temos de vigiar diariamente! Beijinho

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