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Monday, March 2, 2015

René Villemure dixit: a insustentável necessidade de Beleza


"Como as borboletas procuram a luz, todos
 nós procuramos a beleza. É visceral".

                                                         René Villemure


Peço desde já desculpa pelo assomo de #humblebragging ("gabarolice discreta" seria uma tradução sofrível) mas quando me enviam algo de bom, gosto de partilhar.

Principalmente quando algo de bom se refere a trocar impressões com uma mente brilhante que - oh, coisa tão reconfortante como um chocolate quente - tem pontos de vista semelhantes aos nossos. 


O filósofo e dandy René Villemure- que se dedica, entre outras coisas, ao estudo e desenvolvimento da Ética nas organizações - fez-me chegar um texto da sua autoriaum dos escritos mais dolorosamente bonitos que já li sobre a problemática da beleza... que tão maltratada anda nos últimos tempos 
Podem ler a versão em inglês aqui.

 Em boa verdade, entre a Ética -atropelada a torto e a direito -  e a Beleza, tanto do corpo como da alma- ora distorcida, ora questionada, ora apontada quase como algo de que as pessoas se devam envergonhar... não sei dizer qual tem sofrido mais na época que atravessamos. 

Ambas têm, na sua essência, no seu impulso e na sua prática a elevação, o refinamento, a purificação, o aperfeiçoamento: seja da sociedade, da arte, das relações humanas. 

Mas como tudo o que é belo e bom tem um preço - exige esforço, sob pena de exclusão - a Ética e a Beleza estão sujeitas ao ressentimento.

 E com o ressentimento, ou a inveja, vêm as tentativas de destruição - como o criminoso de rua que grafita os muros de um palácio, apenas porque não pode morar nele...nem está disposto a empreender quaisquer mudanças para ser digno daquilo que encarniçadamente cobiça.

Procura-se desfear e vulgarizar as mulheres, a arte, o amor; há um esforço desesperado para provar que o feio pode ser o novo bonito, ou mais interessante...para que ninguém se sinta na obrigação de melhorar. Cultive-se o feio, então, que é mais fácil.

Procura-se freneticamente uma relativização generalizada do bem e do mal, esbater as fronteiras entre o moral e o imoral, justificar a baixeza, o ordinário, o vale tudo...para que ninguém se sinta pecador. 

Na nossa época importa mais reconhecer que há coisas feias no mundo, retratar as coisas feias, hiperbolizá-las, justificá-las aos olhos do mundo, do que 
corrigi-las, inspirar, chamar para o Alto.

Há dias li o comentário genial de um internauta anónimo, a propósito do sucesso de livros como as Cinquenta Sombras - sendo que por cá temos exemplos ainda piores:

 "The book appeals to the thousands of women out there who think they can look like a slob and gain the  love of a sexy, handsome, filthy rich man".

 Fenómenos de popularidade destes - heroína desengraçada, herói de capa de revista - parecem dar voz ao mito urbano «se uma mulher bonita é um perigo, uma mulher insignificante é um perigo e uma desgraça» ou «quanto menos formosa uma mulher é, mais descarada se torna».

E este paradoxo sucede porquê? Porque mesmo quem cultiva o feio e condena a beleza, quem procura reduzi-la ou aviltá-la, tem- embora careça de empenho para a criar na sua vida ou na sua pessoa - o desejo primordial de a possuir, ainda que seja através do outro. 

Embora a beleza - se falarmos na beleza meramente física - seja relativa, ninguém se sente bem na presença do que é, a seus olhos, desagradável. Por mais politicamente correcto que seja dizer o contrário.

O mesmo sucede com a beleza da alma: por mais que se relativize o mal ou o vulgar, há uma vozinha lá dentro que nos diz que isso não está correcto. Porque contraria a nossa própria essência.

 Como René Villemure sabe explicar como ninguém, Eros, o desejo, só sente alívio ou esperança na presença da Beleza; e finalmente, só se satisfaz com a posse da Beleza, ou se não puder tê-la,  com a sua destruição. É visceral.






2 comments:

C. N. Gil said...

Pois,...

...infelizmente isto é algo que, cada vez mais atravessa a sociedade, permeabilizando-a...
...e depois andamos todos a gritar que há uma falta de valores...

Eu, por exemplo, tenho noção de que ando bastante contra a corrente. Numa época em que mais vale parecê-lo, seja a que custo for, do que sê-lo, tipos como eu que vivem bem com o que parecem ser e não se preocupam desesperadamente com coisas absolutamente fúteis e triviais do seu ponto de vista (admito perfeitamente que aquilo que é futil e trivial para mim pode ser fundamental para outros, mas isso é com eles) passam por momentos complicados.
E se falas da procura da beleza como algo mais lato, digo-te que para mim o maior problema está na ética, porque o problema da beleza deriva, precisamente, da falta de ética. E essa está cada vez mais presente em todas as áreas.
Há cada vez mais a ideia de que as pessoas podem ser o que quiserem ser...
...desde que paguem por isso.
Nunca pegaste num instrumento, nem sequer sabes cantar, mas o teu sonho é ser cantor? Gravamos-te o teu disco por uma módica quantia e podes cumprir o teu sonho e se pagares mais um bocadinho até te pomos a cantar na televisão num sábado à tarde!
Não sabes escrever uma frase, mas o teu sonho é ser escritor? Paga-nos e nós editamos o teu livro e nem sequer queremos saber o que lá está dentro...
Querias ser a mulher/homem perfeita/o mas a natureza e a genética não te favoreceram? Pagas a um cirurgião plástico e tudo se arranja...
Esta falta de ética pode, à primeira vista, não ser muito danosa.
Afinal, não vem mal ao mundo de o Zé Cabra editar um CD, não vem mal ao mundo de o Zé Toino editar um livro com as suas mal amanhadas memórias cheio de erros ortográficos e gramaticais, não vem mal ao mundo de a Gertrudes fazer uma série de operações e ficar a parecer uma boneca de plástico...
...Mas estes três são apenas três entre muitos e este descer de "standarts", este baixar da fasquia puramente em nome do dinheiro, estas empresas que se aproveitam dos sonhos das pessoas, a longo prazo causam danos irreparáveis nas áreas onde se mexem...

O belo é, cada vez mais, uma agulha num palheiro cheio até ao tecto de uma mediocridade assustadora e a nova grande aspiração e ser tão medíocre como o medíocre que aparece nas capas de revista e na televisão...

Sinceramente, às vezes apetecia-me ir para uma ilha deserta e ficar por lá...

Imperatriz Sissi said...

Somos dois. Isto da ética e da beleza é mais uma problemática do ovo e da galinha...

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