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Thursday, March 26, 2015

Sensibilidade ou bom senso?


Essa é a grande questão do imortal romance de Jane Austen. A propósito deste tema, já tenho dito que lessem as mulheres de hoje mais Jane Austen e menos disparates... evitar-se-ia muito coração partido e muitas tristes figuras (porque se um coração partido pode acontecer à mais sensata, dar nas vistas já está na mão de cada uma).

 É verdade que as opções das meninas e senhoras dos nossos dias são muito mais amplas do que as das mulheres em inícios do século XIX - mas no que toca ao aspecto pessoal, às emoções e à dinâmica entre os sexos as coisas não mudaram tanto como se prega por aí.

A dignidade feminina de uma Lizzie Bennet cabe em qualquer época. E também podemos aprender bastante com as irmãs de Sensibilidade e Bom Senso: a expansiva Marianne e a discreta Elinor.

 Marianne é romântica, sonhadora e mostra sempre o que lhe vai na alma. A sua meiguice conquista rapidamente dois pretendentes- o íntegro Coronel Brandon e o galã John Willoughby. Ora, ser carinhosa e doce é uma das maiores qualidades femininas. É difícil levar qualquer relacionamento a bom porto se uma mulher esconder demasiado os seus sentimentos; porém, a tradição manda que uma mulher retribua os afectos com subtileza e cautela, o que tem razão de ser...

 Pois Marianne - como tantas mulheres actualmente - considera isso uma hipocrisia e manipulação desnecessária. Gosta tanto de John que não disfarça o seu entusiasmo, alimentando o relacionamento com demasiada rapidez, mesmo antes de estar certa do carácter ou das intenções dele. Mais tarde, quando John se desinteressa e procura outra mulher que sirva melhor os seus propósitos egoístas, Marianne tenta desesperadamente recuperar o seu afecto (o que como todo o mundo sabe ou devia saber, nunca serviu para nada em século algum) tornando-se alvo de chacota. Faz o equivalente a inundá-lo de SMS, mas por cartinhas e lembrancinhas. O que não resulta, claro, porque quando um homem não está assim tão interessado...sabem o resto.


 Só depois de adoecer de desgosto é que Marianne decide tomar juízo e ser mais como Elinor- que é sensata, reservada, racional e põe sempre a lógica mundana e as necessidades dos outros à frente dos impulsos superficiais. Porém, a ponderação de Elinor e a forma como guarda os seus sentimentos para si fazem-na passar injustamente por ser uma pessoa fria e desapaixonada.

 O final feliz só acontece quando as duas irmãs conseguem equilibrar a sensibilidade e o bom senso. 

 Se refrearmos totalmente a nossa sensibilidade e delicadeza femininas, é impossível viver e sentir verdadeiramente. Mas nenhuma felicidade durará se não aplicarmos bom senso, calma e racionalidade ao que sentimos. Sem o uso da razão, não se pode usufruir daquilo que o coração, a energia e o entusiasmo conquistam - seja a nível profissional ou afectivo.

 Em cada mulher há uma Elinor e uma Marianne: resta descobrir qual delas fala mais alto, e invocar a outra para temperar a frieza ou o excesso...


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