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Wednesday, March 18, 2015

What´s in a name, lá dizia Shakespeare.


Esta semana falava eu com uma simpática jornalista ao jantar e começámos a trocar peripécias - ela a contar as suas e eu a recordar a altura em que estava desse lado da barricada da Comunicação, trabalhando em informação generalista...e regional, que é o mais particular dos nichos!

 Ser repórter deixou-me poucas saudades, mas muitas lembranças curiosas. É de todas as nuances deste vasto campo a mais fisicamente exigente, mas pela qualidade e número de pessoas que se conhece, torna-se quase um manancial de anedotas...

 Dizia então a minha colega que em dia de fecho de edição, como não têm um revisor fixo, há sempre um jornalista -rotativo- que não escreve nada, de modo a ter os olhos frescos para reler os textos dos outros, detectando "gatos", erros e disparates provocados pela pressa ou pelo cansaço.

Achei isto muito inteligente e por boas razões, como verão...

 Pois bem, num jornal onde trabalhei acontecia mais ou menos o que sucede em todos os órgãos de comunicação, e que se intensifica quando há equipas pequenas: horários malucos, fins de semana comprometidos, bastante camaradagem, longuíssimos serões, cenas do outro mundo e um nunca acabar de esticar de recursos. Como também não tínhamos revisor e quase toda a equipa escrevia alguma coisa, em fechos de edição era um vê-se-te-avias...muito competentes devíamos ser para raramente haver gaffes de maior.

 Dado que a entrevista era o formato que me agradava mais e eu lá arranjava um modo diplomático de falar com os convidados, que os deixava à vontade, 
encarreguei-me dessa rubrica semanal, que foi bastante elogiada pelos leitores. Andava tudo a correr às mil maravilhas até ao dia em que me calhou entrevistar um senhor lá da terra, empresário respeitado e como todas as personalidades locais, muito cioso do seu bom nome. Uma vez que eu não era de lá, 
assinale-se, só conhecia o cavalheiro de ouvir falar - e nem o nome nem o percurso me eram familiares.

  Mas conversa vem, conversa vai, o artigozinho saiu catita. Fiz a transcrição, guardei o rascunho muito bem guardado, contando acabá-lo com calma...e eis que, já nem sei porquê, nos caiu em cima uma daquelas cargas de trabalho monumentais que às vezes apareciam. Resumindo, ficámos todos assoberbados, exaustos e de olhos trocados; foi preciso dar prioridade a outros textos mais urgentes e a entrevista, que geralmente exigia alguns cuidados de edição, ficou para a própria da hora...

Com a minha maneira detalhista de ser revi vírgula por vírgula o que tinha escrito, e zás, entreguei-o confiada na minha organização do costume...

Sentei-me com os colegas da paginação (como fazia sempre, já que obedecíamos a um layout que limitava títulos e entradas) e ninguém deu por coisa nenhuma.

Sai o jornal...e bem, o senhor liga-nos numa fúria, a barafustar - com justiça- que ele tinha por segundo nome Fortunato e nós tínhamo-lo baptizado de Januário não só no título, como na entrada, como nas citações, uma ofensa a ele e a toda a família que há gerações tanto fazia pela comunidade...

Até hoje estou para saber onde fui buscar um Januário, por obra de que Santo fiz tal associação de ideias e como é que os outros pares de olhos (que conheciam bem o infeliz convidado) também não viram a asneira.

Que havia de fazer? Desfiz-me em desculpas e comprometemo-nos a publicar uma errata na edição seguinte.

O pior é que dali a umas semanas o cavalheiro ainda nos telefonava, aborrecidíssimo - queixando-se de que os amigos agora o tratavam de Januário, que era a troça da vizinhança e que quando ele passava na rua lhe berravam "Eh, Januário!".

 Na redacção aconselharam-me a deixar de lhe passar à porta da loja, não fosse o diabo tecê-las...e eu assim fiz, porque o ofendido não estava para graças...





1 comment:

Carla Isabel said...

Ah ah ah - muito bom ! Valeu a troca pelo que me ri agora!

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