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Thursday, April 9, 2015

A inutilidade de fazer por agradar


Esta semana reparei num artigo perfeitamente inócuo sobre um bonito casal que faz sucesso no Instagram com os seus instantâneos de viagens de sonho. O tema viagens não me diz muito em si, mas achei os retratos lindíssimos, a fazer lembrar a estética dos anos 70. 

 Ao que parece, ninguém sabe se se trata de um casal a sério (a viajar apaixonado porque pode e, segundo alguém disse, para distrair a jovem depois de uma terrível perda familiar) ou de uma qualquer produção glamourosa inventada secretamente por algum portal ou revista. É que de facto, parece demasiado perfeitinho para ser verdade, embora não falte por aí gente para quem esse estilo de vida é o prato do dia, e ainda bem que assim é pois de infelicidade anda este mundo cheio. 

Também não importa- na era dos social media, o inglês ver tornou-se quase uma instituição, a verdade tem mais faces do que nunca e que atire a primeira pedra quem não doura um bocadinho a pílula. Pouca diferença há entre os contos de Fadas e o Instagram, que veio substituir, para um certo público, algumas revistas na função sempre necessária de fazer sonhar.

 Mas ao contrário dos contos de fadas, as redes sociais permitem feedback, logo não faltaram comentários ressabiados - nota bene, contra um casal que não conhecem e que não se sabe ao certo se é real - do estilo "vão mas é trabalhar!", "se soubessem o que custa a vida!", "dinheiro não dá felicidade!", "raios parta os meninos ricos!" ou ainda, "eu viajei mas andei a limpar casas em troca de dormida". As pessoas são mesmo criativas e malvadas quando lhes cheira ao assunto dinheiro, o dinheiro dos outros claro, principalmente atrás de um monitor.

  Porém, calma aí - há dias uma actriz na terceira idade recebeu os mesmos comentários (vai trabalhar, o que te faz falta é uma enxada na mão, quando eras rica não pensavas nos pobres, etc) por se queixar de falta de dinheiro...

Portanto, se o mesmo casal instagramasse sobre o desemprego, conclui-se que a plateia diria "vão para as obras" ou "emigrem como eu emigrei quando era novo e fui a salto p´rá França".

  Mas deixemos de lado o dinheiro, que é feio; falemos no amor: se uma rapariga namora assim, digamos, um rapaz livre e solto, de uma cor diferente da sua, com um ar um bocadinho hippie, com rastas e toda a parafernália e decide ir viver com ele uma divertida existência de saltimbanca, haverá quem diga "o amor é lindo" mas trinta vozes que se levantam para bradar ai que se perdeu uma menina tão linda e de tão boas famílias, ou coitada, está numa de rebeldia para contrariar os pais.

 Porém, se a mesma rapariga se apaixona antes por um rapaz elegante e bem posto, ai Jesus: vai ser uma mulher troféu, um rapaz mais simples podia 
fazê-la igualmente feliz, é uma peneirenta que só lhe servem príncipes encantados, vejam só.

 Como se as pessoas mandassem inteiramente no que sentem, ou tivessem culpa de acidentes de nascença...

 É a velha história do velho, do rapaz e do burro: o povo vão precisa sempre de algo para ventilar as suas frustrações ou por inveja, ou por falta do que fazer, ou para sentir que domina alguma coisa já que não tem poder sobre mais nada, logo é inútil tentar agradar. Bem diz a outra: haters gonna hate e pronto. Ou nas palavras de S. Francisco de Sales, "não importa como procedamos, o mundo sempre nos fará guerra".

   Mas esperem que ainda não é tudo: por vezes até no seio dos íntimos isso de se desdobrar para agradar é o pior disparate. Quando as pessoas estão viradas do avesso, ou debaixo de sofisma, ou numa de não dar o valor, tanto faz correr como saltar. Se faz, é porque faz; se não faz, é porque não faz; se não diz nada, é porque se deixa pisar; se diz, é porque refila...logo, aplique-se a máxima do povo que quando não fala na vida alheia até diz umas coisas acertadas, e não nos amofinemos: quem gosta, gosta, quem não gosta arruma para o lado...

Why bother?


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