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Friday, April 10, 2015

A mulher de Pilatos (ou de quando eles fazem orelhas moucas)



No rescaldo da Páscoa, lembrei-me de uma figura feminina que sempre me fascinou: a esposa do governador da Judeia, que passou ao imaginário comum como Cláudia, ou Cláudia Prócula.  As Escrituras não dizem muito sobre a mulher de Pôncio Pilatos a não ser, no Evangelho de S. Mateus, que foi uma das poucas pessoas a manifestar-se contra a condenação de Jesus, implorando ao marido que nada fizesse contra "aquele justo" pois tivera pesadelos sobre isso toda a noite.

 Se Pilatos lhe prestou realmente alguma atenção será assunto para os estudiosos, tal como a sua biografia (alguns textos dizem que era gaulesa, outros livros apócrifos (?) dirão que era uma neta ilegítima do Imperador Augusto).

Porém todos sabemos o desfecho, logo poderemos supor que, mais tradição menos tradição, Pilatos há-de ter dado tanto ouvidos à mulher como eu fui ao fim do mundo. Típico. 

Quem nunca se queixou "está para vir o dia em que este homem faça caso do que eu digo!" é uma mulher de sorte. Claro que há mulheres que engoliram agulhas de grafonola logo ao nascer, falam por falar e são mandonas só porque sim, o que dá má fama a todas, mas...

 O mais provável (se usarmos um bocadinho a imaginação) é o aflito praefectus, assoberbado com o populacho aos berros, ter descartado o aviso da sensata cara metade como um assomo de sensibilidade feminina, um ataquezinho de histeria face àquela confusão toda, fragilidade de nervos. Isto mulheres!



 A verdade é que Cláudia tinha mesmo razão (embora haja teorias que afirmam que o sonho foi uma tentação do Inimigo, um segundo episódio de Eva, na tentativa de sabotar a redenção da Humanidade). No mínimo podemos considerá-la uma mulher justa e prudente, dotada de forte intuição, que temia pelo marido, que se regia pela sábia ideia "nunca sigas a multidão, que ela vai invariavelmente para o lado errado"... e uma boa pessoa, que não queria ver um inocente condenado. 

Considerada Santa nos primórdios do Cristianismo, e actualmente pela Igreja Ortodoxa, a mulher de Pilatos continua a cativar autores - algumas escritoras de ideias mais modernas vêem-na mesmo como uma "mulher poderosa" (no sentido actual e algo agressivo do termo) por ter dito o que pensava. Não concordo com essa ideia, pois o pouco que sabemos de Claúdia mostra-a como a perfeita matrona romana: recatada, subtil, capaz de influenciar discretamente mas nunca de tentar impor a sua vontade à força, pela sabedoria das mulheres daquele tempo que estavam cientes de que teimar abertamente contra um homem casmurro é tão eficaz como atirar ovos contra uma rocha

 Claro que com subtileza ou sem ela, Pilatos não fez caso do que a mulher disse, tornando-se infame por toda a eternidade. Cláudia foi corajosa, Pilatos foi cobarde. Sendo um homem temeroso e vaidoso da sua posição, não creio que bater o pé tivesse feito diferença alguma.  É um daqueles casos que se verificam desde a noite dos tempos e que hão-de continuar a suceder enquanto o mundo for mundo: quando um homem está ferozmente determinado a fazer disparates, nem vale uma mulher cansar-se; é deixá-lo ir desgovernado, espalhar-se ao comprido e aprender à sua custa...




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