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Monday, April 13, 2015

A Nobre Arte da prudência e temperança femininas

"Olha a princesa destemperada,
Que logo que entra mal fala.
E eu há sete anos que aqui estou
É a primeira fala que dou".
                                                  
  (Popular português)


Sempre gostei muito do estribilho acima, retirado de um conto de fadas que nos ensina algo sobre a beleza da prudência feminina.

A heroína da história, linda e cheia de virtudes como eram as protagonistas dos contos de fadas de antigamente é, primeiro, vítima da inveja da irmã: desejosa de a pôr fora de casa, a malvada convence a irmã ingénua a ir "socorrer uma família necessitada" que morava na vizinhança. Como não tinha malícia, ela foi; mas na verdade, quem vivia nessa casa era um rapaz muito valdevinos, com fama de perder as donzelas dos arredores. Mal a rapariga virou costas, a irmã invejosa foi a correr fazer queixa ao pai, dizendo imaginam o quê. O pai foi ao encontro dela e julgando que ela tinha envergonhado a família, mandou abandoná-la no meio do mato, algo recorrente nestes contos. Vendo-se tão aflita, a menina prometeu que se escapasse não diria uma palavra durante 7 anos (tipo de promessa que surge muito nestas histórias, como já vimos). E ela cumpre, até quando um príncipe a resgata e se apaixona por ela. Fica a viver no palácio, mas mesmo prestes a perder o príncipe para uma rival por ser muda, só abre a boca sucintamente ao fim de sete anos -por acaso, mesmo a tempo de calar a princesa serigaita que ao contrário dela, é "destemperada".

Ora, não consigo imaginar nem uma Princesa Disney actual (até a Pequena Sereia, que era mais old school, não consegue estar calada mais do que três dias) quanto mais uma mulher do nosso tempo, a ser tão discreta e misteriosa. Este conto, embora hiperbólico, mostra qual era o comportamento ideal noutras épocas.

Hoje não se valoriza *tão* oficialmente a discrição, mas ela é mais precisa do que nunca.

Às mulheres são, por tradição, atribuídos certos defeitos ou vícios como a tagarelice, a curiosidade, a bisbilhotice, a frivolidade, o desejo de competição gratuita, a indiscrição e a maledicência. 

Isto nem sempre é justo, já que há muitos homens que se dão a tais "passatempos" com mais veemência do que elas, o que neles ainda parece pior. Mas uma vez que se estereotiparam tais ideias... uma mulher só ganha em fugir ao cliché, evitando como a peste esses comportamentos.

Contra os defeitos "femininos" tentemos empregar o santo remédio de outro substantivo feminino, a virtude da Temperança: actuar comedidamente, fugir dos exageros, saber quando renunciar (ao protagonismo, a ter razão, à ganância, a ganhar uma discussão, a um objectivo ou a uma pessoa) domar os impulsos, agir com sobriedade, desapego, auto domínio e equilíbrio.



 Tudo isso sempre foi difícil pela própria natureza humana, muito mais inclinada a seguir os apetites do que a fazer o que está correcto, mas hoje é-o mais complicado ainda. Afinal, vivemos num tempo em que qualquer anónimo pode disparatar no Facebook ou no Twitter, comentar as notícias dos jornais online, ser um "opinion maker de bancada" e em que as mulheres são encorajadas a ter uma postura agressivamente opinativa.

Mas se pensarmos bem, a Temperança e a Prudência cabem em todo o lado e ajudam a resolver muitos problemas. São panaceias para a paz interior e a elegância do espírito: 

1- Uma mulher bem sucedida é demasiado ocupada para se inteirar de mexericos; a sua curiosidade é voltada para aprender o que lhe faz falta saber, o seu tempo é votado a tratar dos seus próprios assuntos. Se mesmo não ligando à vida alheia for vítima de uma bisbilhotice invejosa que a  prejudique... procurará resolver o caso serenamente, sem lhe dar demasiada importância nem se rebaixar a "deitar achas para a fogueira". Quem não deve não teme e é preciso dar o desconto a almas pouco iluminadas - bem como não pensar tão bem de si própria que qualquer beliscadela seja o fim do mundo...

2- Perante provocações, o desprezo gélido é mais eloquente (e fere mais) do que entrar em argumentações com quem não merece. Há dois adágios muito úteis: "com os malucos não se discute" e "nunca entres em disputas com pessoas feias, que elas não têm nada a perder". Essa fealdade pode ser externa ou interna (má educação, maus instintos) mas quem padece dela dirá as piores coisas para obrigar a outra parte a fazer a mesma figura. Virar as costas e não lhes dar esse prazer, não responder a comentários, nunca cairá mal; já as argumentações podem deixar lugar a dúvidas, ou pôr quem vê a pensar "que grande peixeirada!". O que nos leva à máxima "são precisos dois para fazer uma peixeirada". Poupemo-nos.

3 - A mulher mais inteligente e culta pode passar por estúpida (ou arranjar conflitos escusados) se procurar, a cada momento, demonstrar o que sabe e entrar em todos os debates (e se não desistir até vencer os outros pelo cansaço, pior se torna). Ninguém gosta de uma chica-esperta que dá sentenças sobre tudo. É sempre bom ter a humildade de pensar que a nossa opinião, por fundamentada que seja, não é um maná caído dos céus. Se nos pedirem pareceres, muito bem; caso contrário...

4 -As raparigas têm fama de serem más umas para as outras e de competir porque sim. Pois nada rebaixa tanto duas mulheres como esgatanharem-se por qualquer coisa: seja um namoro, um lugar, uma promoção ou uma camisola nos saldos. Se um homem obriga duas mulheres a competir pela sua atenção, não gosta de nenhuma delas; está apenas a divertir-se à sua custa.  No caso de um triunfo profissional, ele conquista-se pelo afinco, não por derrotar o "inimigo" a quem não cabe, afinal, tomar decisão alguma.
 Portanto há que morder a língua e se for preciso, afectar uma calma que não se possui.

A vontade de responder, dar o troco, desabafar, não deixar a coisa por menos, raramente eleva alguém. Quando é mesmo importante e justo "dizer duas coisas certeiras" a ocasião não deixará de se apresentar; mas quase sempre a  temperança das prudentes e o destempero das serigaitas diz tudo o que precisa de ser dito...




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