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Wednesday, April 1, 2015

Ad kalendas græcas - ou o que se pensa ao organizar álbuns.


Sabem aquela promessa "vou organizar os álbuns lá de casa por ordem cronológica, deitar fora o que não é digno de nota e emoldurar alguns retratos mais especiais" que se vai adiando, adiando?

Pois, essa. Parece que no meio de outras tarefas mais urgentes, vai-se deixando para as calendas gregas dar um ar civilizado aos tesourinhos que foram caindo de exemplares mais antigos, ou que nunca chegaram a sair do envelope, sem contar com as imagens de antepassados que as nossas tias nos vão dando e que prometemos colocar em lugar de honra não vá o diabo tecê-las (mas que ficam guardadinhos a fiar-se na Virgem).

 Depois vai-se instalando o medo e o remorso - além do caos. E se uma pessoa, cruzes canhoto, lhe dá o badagaio e ninguém com sensibilidade se ocupa disso, tendo como consequência deixar para a posteridade aquele testemunho menos abonatório da infância (mudança de dentes, cara suja de gelado) ou, pelo contrário, perder-se aquela photographia da irmã da nossa trisavó, tão gira ("ofereço este retrato com muita amizade à minha querida prima, Maio de 1900 e bolinha") que os descendentes hão-de descartar sem fazer caso da senhora, que até tocava tão bem piano e fazia umas filhoses do outro mundo?

 Como do outro mundo ainda ninguém voltou para contar nada, não sei qual será a probabilidade de vir esbofetear descendentes tão ingratos, logo, nunca fiando.

  Quando, aqui e ali estilo obras de Sta. Engrácia, se vão separando estas memórias, o que ocorre dizer é dar graças pela fotografia digital. 

Certo, as imagens hoje têm menos impacto: não ocorrerá a ninguém oferecer um retrato ao mais que tudo como sinal de compromisso sério. Nem andar com tipo passes na carteira - até as avozinhas trazem as caras dos netos no telemóvel, afinal um cartão de memória tem esse nome por algum motivo: dá para trazer o Luís, o Manel e a Sofia em todos os ângulos, mais os sobrinhos e as imagens do casamento em 1955, devidamente digitalizadas (ou captadas a esmo com o dito telemóvel; ao menos salva-se alguma coisa).

 Ninguém espera hoje receber uma carta com fotografias - mesmo as antigas partilham-se via redes sociais, para que até os primos de Itália ou dos Estados Unidos lhes tenham acesso imediato, em vez de enviar uma missiva a cada um. 

Também há menos perigo de, perdendo-se o original, perder-se tudo, a não ser que se seja mesmo descuidado...

  Mas entre a banalização e a salvação dos retratos, há uma grande vantagem no digital: a de escolher e editar imediatamente o que não interessa. Os rolos não só eram caros e ocupavam muito, como deixavam atrás de si um nunca acabar de imagens desfocadas, indecifráveis ou em que alguém fechava os olhos/fazia uma careta/olhava para o lado. E na preguiça/falta de tempo de escolher manualmente logo que se revelavam, para ali ficam disparates com 20 anos, da ponta da capa do Pedrinho vestido de ninja, da cauda do Tareco a subir à cortina, da tia Felicidade com os olhos tortos e a tentar tirar da objectiva a fatia de bolo (ou o copo espirituoso) com que a apanharam desprevenida...

 Isto para não falar dos ângulos ou pormenores que é preferível limar, porque às vezes um detalhe estraga,literalmente, a fotografia.

 Ainda há quem fale mal do photoshop e companhia. Pouco amiga que sou de modernices, acho que tudo isso veio poupar muitos embaraços às gerações futuras...





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