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Tuesday, April 28, 2015

Dois daqueles lampejos que fazem a vida valer a pena



1- Uma das melhores definições que já encontrei sobre o amor, lida aqui:

"O amor produz um fenómeno que os filósofos da Idade Média chamavam êxtase. Este toma, por assim dizer, o coração da pessoa que ama e coloca-o no lugar da pessoa amada (...) . As grandes dores brotam do coração; provêm de um coração dilacerado. Então somos atingidos no mais íntimo de nós mesmos. Se alguma ajuda fortíssima não vem em nosso socorro esse amor, que nos tinha levado ao paraíso dos sonhos, precipita-nos no túmulo. O amor dilacerado mata-nos".

Mas não estará nessa fragilidade tão dolorosa - ou na ameaça dessa fragilidade - a beleza, a essência dos sentimentos que valem a pena?  Bem se diz que "a Cruz é o trono dos verdadeiros amantes". 



 2- Ouvido neste programa do Canal História: um rapazinho de nove anos foi levado com a mãe para Auschwitz. Apesar de terem sido separados, de vez em quando a pobre senhora conseguia  avistar-se com o filho através do muro farpado e quando tinha essa sorte, chorava, como seria de esperar. O pequeno, de natureza espevitada, rebelde como são todas as crianças e forçado a endurecer antes do tempo, respondia-lhe com aspereza (talvez para se defender lá por dentro): "porque está para aí a chorar, mãe? Chore que não chore vamos morrer na mesma".

 Entretanto o rapaz foi levado para uma fábrica dentro do campo, um lugar tão brutal como todos os outros naquela amostra do Inferno. Porém, um soldado alemão chamou-o de parte (aqui confesso que me encolhi, já a imaginar a violência que segundo relatos, costumava seguir-se a essas situações) e afastou-o dali para fora, dizendo-lhe:

"Estou-me  nas tintas para o que fazes ou deixas de fazer, mas eu cá não gosto de ver meninos a apanhar pancada..." e assim o salvou daquele destino. A partir daí o jovem passou a acreditar na bondade. Salvou-se, reuniu-se à mãe no fim da guerra e construiu uma vida nos E.U.A, mas ao contrário de tantos outros que tiveram a mesma sorte, não ficou destruído por dentro. Ter visto um acto de compaixão no mais improvável dos locais (onde até os infelizes prisioneiros se voltavam uns contra os outros na ânsia de sobreviver) vindo da última pessoa de quem se esperava uma centelha de humanidade, impediu a sua alma de congelar por completo.

Isto dá que pensar - se um nazi doutrinado, com carta branca para cometer todas as infâmias com a desculpa do "dever"  (e muito provavelmente, cheio de medo das consequências que um gesto como este lhe traria) pôde ter um momento de gentileza que salvou a vida e o coração de um rapaz, mudando a sua forma de estar para sempre, imaginem os actos de bondade que nós, com outra liberdade de acção e outra mentalidade, não deixaremos escapar todos os dias. Talvez as nossas boas acções não tenham consequências tão bonitinhas nem tão espectaculares, mas não subestimemos o impacto que podem ter para quem os recebe, nem o efeito borboleta...


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