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Thursday, April 23, 2015

E um bocadinho de ética na imprensa feminina, não?


Hoje, com certa pena, decidi deixar de seguir a página generalista de um site  que acompanhava regularmente e cujos artigos, ora por bons ou maus motivos, já tenho linkado por aqui. Não era a primeira vez que ameaçava 
fazê-lo (tal como outros leitores, a julgar pelos comentários que me ia dando ao trabalho de ler para avaliar se só a mim me fazia impressão o abuso de certos temas e perspectivas). O portal tem interessantes textos de moda e tendências sociais, sem dúvida, mas peca quer pelo exagero de notícias desmioladas sobre Kardashian e companhia, quer pela linha editorial com uma certa agenda política muito vincada, sempre no mesmo sentido. Ou seja, ver sexismo até numa barra de sabão; um melindre constante com tudo o que seja minimamente politicamente incorrecto, mas tolerância absoluta e aplauso a todas as "novidades" mesmo que isso se traduza em comportamentos questionáveis ou opções pouco estéticas; o incessante advogar de um único tipo de mulher: muito assertiva, de mente muito aberta, com um estilo de vida alternativo (para não dizer moralmente duvidoso).

Tudo isso seria legítimo (quem não aprecia ou não concorda, vai ler outra coisa) se o site assumisse um determinado posicionamento,não se apresentando meramente como "a empresa de new media com maior crescimento dos EUA, com o objectivo de se tornar  a marca número um no seu género para mulheres inteligentes, criativas e cheias de estilo em todo o mundo".

 Julgava eu que mulheres inteligentes, criativas e cheias de estilo por este mundo fora as havia mais conservadoras e menos, com diferentes credos, diferentes gostos e orientações políticas ou morais. Mas parece que de acordo com o portal Refinery29, só há uma maneira aceitável de ser- o que é estranho, quando supostamente defendem a total liberdade de escolha para as mulheres e contam com mais de 200 empregados (que acredito, mais de metade sejam mulheres e que passem por um processo de selecção muito rigoroso a nível de ideologia ou que sejam obrigados a dizer sim senhora a tudo).

 Ou bem que somos generalistas e informativos (sabendo embora que linha editorial há sempre, pode é ser subtil) ou bem que não escondemos uma opinião vincada e o leitor sabe com o que conta. Ora, não é isso que acontece: em stories que não são publicadas enquanto artigo de opinião, a informação raramente é apresentada de forma neutra, de modo a deixar a leitora tirar as suas próprias conclusões. A doutrinação, a cassete a dizer que não fazer a depilação é "lindo e confere poder", ou destaques do estilo "esta rapariga é obesa, retrata-se todos os dias em trajes menores e isso é RADICAL E FABULOSO" são uma constante. Nenhum tema, ou quase nenhum, por delicado que seja, é tratado isenta e imparcialmente. Isso andava a fazer-me um bocadinho de confusão, porque ainda acredito que crónica é uma coisa, blog é uma coisa, notícia e "entretenimento generalista" já é outra. Mas fui deixando andar, a ver em que paravam as modas.



 Porém, desta feita publicaram isto: uma lista aparentemente "leve" (se é que se pode tratar com leveza um assunto tão sério) das abordagens positivas e negativas do aborto em filmes e séries, que (só procurando nas entrelinhas se percebe) é da responsabilidade de um guest contributor - reparem bem - o "Centro para os Direitos Reprodutivos". E não, não está assinalado nas redes sociais que o artigo vem assinado por uma representante dessa organização. É divulgado enquanto post comum, como se fosse a lista dos melhores bâtons ou os melhores looks de fulana e beltrana desde o ano 2000.

 Eu tenho uma opinião bastante definida sobre o tema, que não vou impor a a ninguém, mas custa-me a crer que qualquer mulher na plena posse das suas faculdades interrompa uma gravidez sem pensar duas vezes, como quem dá um passeio no parque (ou custava, porque vendo coisas como estas e a estatística + a leviandade dos "incentivos" à IVG em Portugal, já não digo nada). 
   No entanto, é isso mesmo que o artigo em causa sugere, com uma frieza e ligeireza que raia a irresponsabilidade. Em resumo, os filmes/séries em que, face a uma gravidez não planeada, a mãe optou por ter o filho ou se arrependia de ter abortado, são pintados como opressores e negativos; só aqueles em que a mãe escolheu interromper a gravidez  sem culpas "porque não queria ter o filho" recebem boa nota.

Segundo a autora, as clínicas de abortos são lugares acolhedores, o aborto é um procedimento super seguro e inconsequente, não há o mínimo de emoção envolvido no processo. Só falta dizer, em suma, que o aborto é uma coisa maravilhosa e que quem nunca fez um, não sabe o que está a perder. Nem vou gastar tempo a perguntar-me se realmente as pacientes em causa foram ouvidas, porque se foram estamos a falar de pessoas - a meu ver- muito desalmadas.

 Porém, o que realmente importa aqui, que o texto já vai longo, é que o artigo em análise não é caso único. Deparo-me com várias postagens tendenciosas, sobre este e outros temas, mascaradas de informação ou entretenimento, em publicações femininas. Numa tentativa cujo objectivo me escapa de moldar ou adormecer consciências em determinadas direcções. 

Se é para tentarem esculpir a nossa opinião, é preferível que o façam às claras...é menos perigoso.


3 comments:

C. N. Gil said...

Segundo me parece, alguém nesse portal deve ter uma agenda a cumprir...

:)

Lingua Afiada said...

Estive a ler o artigo e realmente o mesmo não só é altamente tendencioso como pouco correto, já que afirma que fazer abortos sucessivos não interfere com a capacidade de ter filhos mais tarde, o que é errado. Abortar poderá não causar danos, mas por melhor que seja a clinica ninguém pode garantir a 100% que não hajam consequências físicas, para nem falar das psicológicas que dependem de pessoa para pessoa.
Além disso fazem crer que se a gravidez não for planeada a melhor opção é sempre abortar.
Este artigo é claramente uma publicidade mascarada, situação bastante comum nos nossos dias, mas quando se trata de um assunto tão sensível e delicado acho um absurdo encarem-no com tamanha leveza e ironia.
É um artigo fútil, triste e absurdo.

Imperatriz Sissi said...

Completamente. Não percebo é a necessidade de o esconder. Tenho pena, mas a página geral para mim acabou (salva-se que têm a opção de seguir apenas as páginas de moda e beleza). Este artigo em particular é uma clara promoção a clínicas privadas deste género, o que é um bocadinho sinistro.

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