Recomenda-se:

Netscope

Wednesday, April 1, 2015

Malcriados com obrigação para mais - a explicação em forma de conto.


Há pessoas que são malcriadas porque enfim, coitadas, basta olhar para quem as educou para terem direito a desconto. Dessas não se espera muito, a não ser distância.

 Depois, existe a outra classe de malcriadões (e ressalvo - todos nós somos capazes de proceder assim uma vez por outra, mas há limites). Meninos e meninas que tiveram a mais esmerada educação mas escolhem não lhe dar ouvidos, abusando da velha regra "quem é super bem criado pode dar-se ao luxo de ignorar as regras de vez em quando". Sou toda pela ausência de afectação, sinceridade e modos desempenados, mas lá dizia Confúcio: franqueza sem delicadeza é grosseria...

 Quando encontro casos desses, só me lembra uma pergunta retórica - será que este ser foi mesmo educado em sua casa?

Mas é melhor ilustrar a ideia com uma parabolazinha.

 Em pequenas estas pessoas já eram reguilas que se fartavam, e um dia fintaram a vigilância dos adultos e fugiram para a carrinha do peixeiro que estava por perto. O homenzinho, que andava honestamente a tratar da sua vida, não deu por nada e lá os levou, entre as espinhas de peixe e as conchas de moluscos, para o Mercado da Ribeira ou do Bolhão (conforme a proveniência da criança malcriada, vá). 

 Lá chegados, o peixeiro largou as cestas sem reparar no "brinde"que deixava e abalou. Só mais tarde, quando as senhoras peixeiras iam tirar a mercadoria, é que viram o (a) infeliz e desataram num berreiro "ai que linda criancinha!", apesar de a criancinha não cheirar exactamente a água de colónia...



E no meio do rebuliço, ninguém se lembrou de indagar de onde tinha vindo tal anjinho: ainda apareceu um polícia mas o espalhafato era tanto que não percebeu patavina e o caso passou em branca nuvem.

 A criança foi adoptada, salvo seja porque ninguém tratou dos papéis, pela senhora Aninhas Peixeira, crescendo alegremente entre as escamas e tripas de faneca e aprendendo os modos que o ofício da sua mãe de criação exigia. Entretanto a família verdadeira procurava-a desesperada, temendo que tivesse caído a um poço ou coisa pior -  mas claro, nunca lhe ocorreria que tivesse ido parar a um local tão improvável. O tempo foi passando e quando a criança já sabia ler, amanhar peixe e dar trocos às freguesas que dava gosto, e estava rechonchudinha de tanto enfardar proteínas e Omega 3, eis que a cozinheira lá de casa foi às compras e deu com o mistério.

Houve muita gritaria porque a Aninhas Peixeira bradava "acudam que me querem levar o meu anjinho, ai esta ordinária!", acompanhando os uivos com lançamento de carapaus, e a Sra. Juliana, respeitável matrona que servira nas melhores casas e não gostava de desaforos, se defendia à chapelada. Quanto ao falso enjeitadinho...esse pôs-se no alto da banca a dizer palavrões de fazer corar um carroceiro na sua engraçada voz infantil.


 Chamaram-se as autoridades, veio a família, comprovou-se a real identidade da criança peixeira, recompensou-se largamente a boa Aninhas que ficou inconsolável mesmo assim... e só havia que levar o "tesouro" para casa, dar-lhe um banho enorme e prepará-lo para a sua verdadeira missão na vida, que não era exactamente fazer cataplanas de comer e chorar por mais.

 Uma vez reeducada como se pôde, porque não há milagres, rapidamente esqueceu as receitas de caldeirada e de feijoada de chocos, actualmente nem sonha como se amanha um peixe (não há nada de mal nisso, não se pode ser bom em tudo) mas o hábito de dizer disparates e barbaridades lá ficou, bem como a mania de levar tudo à bruta...

 Fica tudo esclarecido e é dar-se o desconto, como aos mais.


No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...