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Saturday, April 11, 2015

Mulher sem bâton sofre: a História prova-o.


Há uma primeira vez para tudo - até para, numa vida inteira, a rapariga mais organizada esquecer o bâton em casa.

  Mesmo não sendo uma makeup junkie nem tão pouco amiga de se pintalgar em excesso, creio que nenhuma mulher cuidada  iria nem para a guerra sem levar ao menos o pó de arroz e um bâtonzito hidratante, quanto mais para uma qualquer reunião social. Em caso de apocalipse zombie, acharia maneira de esconder o básico dos básicos nos bolsos do colete: assim como assim um bâton em miniatura não ocupa mais do que uma bala.

  Mas às vezes está-se mesmo com muita pressa. E faz-se questão de levar uma clutch mais pequena do que o costume, daquelas que enganam:  "é um amor e parece  razoável o suficiente para encafifar, entre outras coisinhas, o telemóvel, uns toalhetes, o pó, e ao menos um mini bâton" (mulheres prevenidas, arranjem miniaturas das vossas cores de eleição para estas ocasiões).

Mas naquele modo qual é que eu levo? Gosto mais desta cor - não, levo este que já estou a usar, tira, volta a tentar, desmancha e faz tudo de novo, aperta a ver se a mola fecha, ai que já estou atrasada, etc...lá esquece e só se dá  pela asneira tarde demais.



 E zás, começa uma noite - única numa vida inteira, espera-se - de frívola angústia, ou no mínimo, de desconsolo e desidratação . Pode parecer coisa pouca, mas fica-se desprotegida como naqueles pesadelos em que se ia de pijama para a escola ou o pesadelo recorrente em que se viaja sem cartão  multibanco nem passaporte.

 E uma mulher lá se resigna, pensando que alguma amiga terá algum remedeio que lhe empreste, que 
a maquilhagem ficou bem feita e há-de durar porque o  lipstain inventou-se para alguma coisa, que modelos e actrizes no plateau ou passerelle mal comem e só bebem por uma palhinha para não fazer zangar os maquilhadores e  aguentam-se e que, se a necessidade for de vida ou de morte, há-de haver uma loja por perto, bastando saltitar até lá para remediar o caso.

Mas claro que nunca costuma haver nada disso, pela incontornável lei da física quem vai para o mar atavia-se em terra



Face à privação, com as horas a decorrer, começam a passar pela cabeça as soluções mais extremas -  por exemplo, fazer como as mulheres durante a II Guerra Mundial e surripiar da cozinha ou da mesa um pedaço de beterraba, que é um pigmento infalível. Mas e se alguém vê? É melhor não.

 De qualquer maneira, mesmo sem beterraba o desastre nunca é grande e ninguém dá por nada, mas tal sofrimento é uma experiência interessante, ao estilo teste científico pouco ético de outros tempos.

Winston Churchill foi sábio quando não racionou de todo o bâton a bem da moral da população - o desfecho da Guerra podia ter sido outro.

  Privar uma mulher do seu bâton é tirar-lhe todo um ritual. Ir à casinha retocar a cara (momento de reflexão quando se aproveita para  meditar brevemente na vida)  não tem a mesma graça. 
Perde-se a pequena alegria de refrescar a cor e de sentir os lábios devidamente avivados e hidratados, que é sempre reconfortante mesmo quando não é propriamente necessário. Não há uma desculpa para se esconder atrás do espelhinho caso apeteça ignorar a vizinha do lado. Voltar com o bâton retocado para encarar quem está é o equivalente feminino aos cowboys que viravam um valente trago de zurrapa antes de um duelo. 

Não admira que durante a Renascença houvesse veneno escondido nos bâtons, como na Rainha Margot



Era o primeiro sítio onde uma potencial rival iria cair como um patinho. Pelo menos, se se tivesse esquecido do seu. Esperta, a Caterina de Medici!





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