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Thursday, April 16, 2015

Não há "amor indolor"



"Quem quer amar verdadeiramente não pode fazer o juramento de não sofrer. Se pararmos para pensar, as pessoas que realmente nos amam são aquelas que sofreram por nós".


A frase acima poderia servir de update ao velhinho dito do povo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer".

Actualmente vendem-nos muito a ideia bem intencionada e new age de que o verdadeiro amor, o amor "saudável" (seja o amor "da alma gémea" ou outros afectos) é isento de sofrimento; que é fácil, simples, flui naturalmente e tudo é um mar de rosas.

E até certo ponto, isso não deixa de ser verdade: quem ama, quer o bem do outro. Não manipula, não entra em "jogos" desnecessários, não faz a pessoa de quem gosta infeliz deliberada e prolongadamente, sabe perdoar, reconsidera, cede. 

 Mas somos humanos, sujeitos a mil erros. E muitas vezes, mesmo amando de todo o coração, os humanos têm o feio hábito de desgostar as pessoas que são importantes para eles. Até o amor entre pais e filhos, que deve ser incondicional, está sujeito à falha humana - por isso se diz que as mães são as maiores sofredoras. Que não serão então os outros amores!

O amor, pela sua própria natureza, é fonte de ansiedades. Se não há ansiedade, não há amor.

 A partir do primeiro instante em que se deixam cair as defesas e começa a sina de "importar-se com", nascem os pequenos sofrimentos, o tal contentamento descontente, a dorzinha que desatina sem doer ou, como dizia Octave Mirbeau, o sofrimento que também é voluptuosidade: a insegurança, o receio, o ciúme, etc.


 Se a pessoa em causa não desperta a mínima comoção...os amores mornos, de papelão, não fazem sofrer, mas também não provocam sensação alguma.

 A partir do instante em que gostamos de alguém ou de alguma coisa, há o receio da perda. É a fragilidade da nossa condição e a vulnerabilidade do próprio amor que o torna relevante.

 Para amar bem, é preciso sofrer bem...ou pelo menos, estar preparado (a) para tal. Quem diz "eu nunca te farei sofrer", quem promete uma vida sem sobressaltos, conta uma mentira piedosa. Mais vale dizer "eu espero nunca te fazer sofrer".

Depois, há outro aspecto incontornável: o amor é uma canseira em si mesmo, uma missão, que para além de ser obrigado a resistir aos impactos da personalidade de cada um ainda enfrenta obstáculos externos pelo caminho. Interferências humanas, de saúde, económicas...

Não se sabe se aquela pessoa tão bonita que parece irreal vai ser sempre bonita. Nem se as circunstâncias vão ser sempre confortáveis ou, em última análise, quanto tempo há para estar com ela neste mundo.

A maior parte dos grandes amores não nasceu perfeita. Deu muito trabalho, e grandes voltas. É essa resistência - e um caminho que não é sempre fácil, new age, natural e espontâneo - que os distingue. 

  Quem não vai preparado para padecer um bocadinho, quem diz "eu quero estar contigo, mas recuso-me a sofrer" então ama muito pouco, ama mal... ou tem demasiado amor a si mesmo, o que impossibilita querer realmente a outrem.

  O amor, porque magoa e assusta, pede coragem e espírito de sacrifício. E vem com a cláusula  de consentimento "sei bem ao que me sujeito, mas quero mesmo assim".


 




1 comment:

Dan said...

Tão bonito. :)

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