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Saturday, April 25, 2015

Notícia da maior importância: o passado já não existe.


 O passado já não existe.

Esta simples frase, incluída numa prece de uma edição (1951) da imortal obra atribuída a Tomás de Kempis, devia estar escrita em letras gordas no pulso, no espelho, no tecto, no screensaver de quase toda a gente, a ver se fazia efeito em modo mensagem subliminar.

Talvez se devessem mandar fazer ímanes de frigorífico a dizer que o passado já não existe, para entrar pelos olhos dentro logo pela manhã e ficar gravadinho no subconsciente. E para quem gosta de tatuagens, seria uma excelente sugestão: uma tatuagem- lembrete bem mais útil que o fanado (e incompleto) carpe diem.

Que o passado já não existe, não constitui grande novidade: só que é uma daquelas sentenças tão óbvias que já nem se repara nelas, tal como quem só dá pela existência do ar quando ele falta.

 Mas até parece que está vivo e de saúde, de tal maneira há pessoas que por bons ou maus motivos (todos eles inúteis) teimam em viver no passado, em alegrar-se com o passado, em angustiar-se com uma sede que já deixaram de sentir. Uns, agarrados às glórias de outras eras ou às rebeldias da juventude; outros, aos triunfos pessoais que já não voltam; outros ainda, tentam por força consertar um amor que já não tem arranjo, confiados na mística do início; e não esqueçamos os que tratam de destruir o amor presente, estragando o que resta e podia ser reparado com a desculpa de uma cicatriz  que ficou. Estes últimos são ajudados na tarefa por uma cara metade igualmente presa ao passado e esperançosa, porque o sofrimento raramente actua a solo.


É de notar também que a marca do tempo tudo engrandece, tornando mais belo o que teve os seus defeitos e agigantando coisas de nada. O tempo nem sempre cura tudo. Lá dizia Jorge Palma, o tempo não sabe nada, o tempo não tem razão. Ou no mínimo, baralha muito o raciocínio.

 Mas para o bem ou para o mal, não importa as boas (e imprescindíveis) bases que tenha deixado, as dores que fez padecer, os sulcos que tenha marcado no chão, a forma como redesenhou o solo, o passado não está aqui, não respira nem tem uma força viva. Não pode realmente elevar, diminuir ou magoar quem gasta o seu tempo, consome o seu presente e compromete o seu futuro a pensar no que foi feito, não foi feito ou poderia ter sido feito de forma diferente.

  Não existe, e crer nisso é fazer tudo de um bocadinho de nada. É viver como uma múmia. E quem não deseja esse destino, só tem o remédio de caminhar para a frente, nem que seja a solo, e deixar para trás quem vive do que já lá vai. Ao contrário do sofrimento, fazer o próprio destino nem sempre adora companhia.

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