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Friday, April 24, 2015

O complexo *masculino* de disco riscado.


Digo muitas vezes que a abordagem "não julgueis" (que agora está tão na moda que é quase imposta) é bastante perniciosa. Não creio que quem tenha padrões morais e estéticos, procure conduzir-se rectamente e dar um bom exemplo a quem o rodeia deva ser isento de julgamento e da noção do certo ou do errado

 Desconfio de quem afirma aos quatro ventos não julgar ninguém: não vê mal em nada porque se tornou insensível. A exemplo hiperbólico basta recordar o povo alemão, que durante a II Guerra não via "mal nenhum" nas loucuras de Hitler.

Desde que sejamos mais rigorosos connosco do que somos com os outros - e que mantenhamos as nossas opiniões dentro das regras de boa sociedade - julgar não é necessariamente mau.

  Porém, é igualmente má política apontar os erros alheios esquecendo convenientemente os nossos. Pensemos na perspectiva da nossa cultura Católica, que está profundamente enraizada (mesmo que algumas pessoas não gostem disso): quem errou e está arrependido faz a devida contrição, confissão e penitência ficando limpo desses erros a partir daí, com a firme obrigação de se emendar e não voltar a cair no mesmo. Essa obrigação é muito séria e se não for cumprida, mais valia poupar os passos. Mas se o for, é andar para frente dali em diante, ocupando o tempo a aperfeiçoar-se, não a pensar no que lá vai.


Em toda a relação humana, aplica-se o mesmo princípio: qualquer Dr. Phil da vida, qualquer terapeuta ou guru do género dirá o mesmo. Entre casais, família ou amigos ninguém ganha nada em desenterrar uma e outra vez pecados esquecidos, em ir buscar águas passadas logo que uma discussão aflora. Isso é reviver tormentos inúteis, reabrir feridas, deitar-lhes sal e bater num cavalo morto (salvo seja) em vez de cuidar dos cavalos vivos que, esses sim, precisam de atenção aqui e agora. Fingir que se perdoou e esqueceu mas insistir ad aeternum no mesmo é enganar-se a si e aos outros. Ou pior: partir do princípio que somos perfeitos, de uma pureza inexcedível...e que qualquer melindre contra a nossa augusta pessoa é crime de lesa majestade, logo temos o direito de castigar outrem por isso quando nos dá na gana.

Bem diz o Discurso: antes de notar a partícula nos olhos alheios, há que reparar no grande cisco que há nos nossos. Muita gente, porém, esquece que aprendeu esse princípio. E que a mágoa, por legítima que seja, não justifica tudo - pelo menos, se houver afecto pela pessoa a quem se aponta o dedo e o desejo de conservar o que se tem.

Esse complexo de disco riscado dá-se tanto com homens como com mulheres, mas lamento dizer que o sexo masculino é perito nisso...

Ou seja, há cavalheiros que fazem trinta por uma linha, confiados na infinita paciência e capacidade de sacrifício que é apanágio feminino e na tradição que manda desculpar certas asneiras como "coisas de homem" ou "rapaziadas". Mas se uma mulher cai no seu desagrado, nem que seja como consequência do muito que aturou, é sermão e inferno até ao fim do mundo. De repente, 
põem-se no alto de um pedestal exigindo uma perfeição  que não podem retribuir. Só conta o cisco nos olhos delas, por mais gotas que se ponham, mas a poeirada nos deles faz de conta que não existe. Mesmo que essa poeirada não deixe ver o caminho, que é para a frente e não para trás...



4 comments:

C. N. Gil said...

Olha, eu não julgo ninguém pelo simples facto de não ter tempo para isso. O tempo que tenho para julgamentos ocupo-o comigo, e já me dou trabalho de sobra. Não me é fácil (tentar) limar as minhas imperfeições, quanto mais preocupar-me com as doa outros...

Normalmente aplico a regra "Se fores simpático comigo, serei contigo, senão ignoro-te..." e tenho-me dado bem...

E também não gosto de atirar pedras aos telhados de vidro dos outros. Também tenho demasiados... É uma questão de prevenção. Aliás, desconfio sempre de quem se enche de razões...

:)

Ana Duarte said...

Sou da opiniao que julgar, num momento ou outro julgamos todos(quanto mais nao seja se se tratar de atitudes pouco honestas que nos prejudicaram directamente ou a alguém próximo). Mas fazer disso hobby e criticar tudo até o que nao nos diz respeitotambém será censurável.
Há pessoas que por ignorancia ou ingenuidade fazem escolhas menos acertadas em termos de vestuário (por exemplo), mas nao raro anos mais tarde aprendem a vestir-se e até se envergonham da forma como saiam à rua no passado. A vida é uma aprendizagem constante. E para mais, o que seria deste mundo sem o perdao?

Imperatriz Sissi said...

@Ulisses, eu julgo para meu governo, no sentido de decidir o que me faz bem, nomeadamente companhias. E claro que quando se reflecte sobre as tendências de sociedade, é impossível não avaliar o que se passa, ter espírito crítico. Mas claro que temos de ser mais severos ainda connosco, senão fica o propósito vazio.

@Ana, é verdade. Pessoas que não julgam são questionáveis, mas quem julga constantemente provoca crispação. É muito cansativo. E depois há a questão do perdão e do seguir adiante, que é imprescindível em qualquer organização humana.

Imperatriz Sissi said...

@Ana, concordo inteiramente que muitas pessoas vestem de forma inapropriada por nunca lhes ter sido mostrado que podem fazê-lo de outra maneira. Criticar gratuitamente não ajuda ninguém, porém às vezes tudo o que é preciso é levantar a lebre para que haja uma reflexão do estilo "nunca tinha visto isso por esse prisma".

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