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Tuesday, April 21, 2015

O instinto básico do ciúme





O ciúme é uma emoção primordial não exclusiva do ser humano. Quem tem vários animais de estimação apercebe-se disso: cães e gatos disputam entre si (e de que maneira!) tanto a atenção de potenciais parceiros como a do dono, assim como qualquer privilégio (o primeiro ou mais apetitoso pedacinho de comida, um caixote/lugar no sofá que até há minutos não lhes interessava para nada mas passa a ser importante assim que "o outro" lá se senta, etc).



 E don´t get me started a falar nos tigres, leões (capazes de assassinar as crias de um rival para tomar o seu lugar) veados, alces, cavalos, papagaios, galos ou mesmo animais "fofinhos" como os cangurus ou os pinguins (que se enchem de bofetada uns aos outros). 



Podia continuar por aí fora, a citar a Arca de Noé inteira, mas percebem a teoria. Dos ciúmes nenhum animal está livre, nem mesmo estes sofisticados primatas que somos. E quando se trata do ciúme relativo ao amor romântico, que interfere com emoções ainda mais intensas, pior se torna, porque ameaça tanto a noção de exclusividade (sobretudo nos homens, dizem os especialistas) como a de segurança (que afecta mais as mulheres, afirmam eles).

 São instintos perfeitamente naturais e compreensíveis, que as leis da sociedade humana vieram regulamentar mais ou menos formalmente. Li há dias que a monogamia, o casamento, se inventaram principalmente para evitar a dor e infelicidade que advêm da infidelidade ou abandono do parceiro. Ainda que a ideia de "amor livre" tivesse triunfado completamente, o ser humano continuaria a aspirar a um amor só seu. A paixão pede (ou exige) posse completa. Acredito nisto plenamente, embora possa haver indivíduos que escapem à regra. A maior parte das aves parece compreender isto, acasalando para toda a vida - daí a tradição chinesa de usar símbolos como patos ou grous como talismãs para uma união feliz.


Patos Mandarins, talismãs chineses do amor feliz e da fidelidade

 O ciúme é natural, legítimo (pelo menos, quando uma relação oficial e estabelecida é de alguma forma ameaçada) e, se mantido sob controle, até lisonjeiro. 

 No entanto, sabendo nós disto tudo, não deixa de ser surpreendente como alguns seres humanos com educação, completamente civilizados em todos os aspectos, polidos por todas as regras mundanas, se deixam completamente transtornar pelo "monstro de olhos verdes". Porque uma coisa é senti-lo, outra bem diferente é permitir que ele domine até quando não há motivos. 

 Tenho visto vários cavalheiros (nas mulheres acontece também, mas no masculino torna-se uma coisa devastadora) que, face a um simples olhar ou comentário de qualquer homem presente em relação à mulher com quem se importam, perdem a cabeça. Em público, se for preciso. Não conseguem, ao menos, manifestar discretamente o que os incomoda. Se sofrerem de ciúmes agudos, irracionais, são capazes de insultar a mulher, que nem fez nada, acusando-a de "ter encorajado", de ter "provocado". 



Não pensam: a emoção, o instinto, os sentimentos levam totalmente a  melhor. Perdem a  noção do que dizem, do que fazem, da figura que fazem - passe o pleonasmo - daquilo que quem está pode pensar deles, da mulher que está com eles, da situação (porque quem vê não percebe o que realmente se passou e pode julgar imediatamente coisas muito piores) da realidade, das consequências (vide Othello), da lógica. 

E escusado será dizer, argumentar com um ciumento é tempo baldado porque uma vez desencadeada essa reacção (que pode accionar-se numa questão de segundos) eles ficam cegos, não vêem, não raciocinam. Só sentem, e o que sentem é terrível. É como se um ácido corroesse tudo o que há de bom e esclarecido lá dentro.

 Onde fica então o homem civilizado que devia ser superior a essas coisas, a esses frémitos selvagens? Onde fica nesse caso a lógica, a racionalidade, a alma? Perante o instinto básico, vai-se tudo. Se o amor é o milagre da civilização, o ciúme doentio é a prova de que a civilização está constantemente ameaçada.




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