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Wednesday, April 8, 2015

Quando eles são "Marcus Vinicius"


Um "Marcus Vinicius", para vos poupar a uma grande introdução, é assim um rapaz bonito e que até tem um óptimo coração, mas...emocionalmente bronco, brutinho como os montes.

 Esta designação vem, como já terão adivinhado, do romance que deu um clássico do cinema, Quo Vadis*. Sempre adorei essa história, para começar porque se passava em Roma e tinha o Petronius, já vos falei no Petronius. Depois, em pequena achava que a Popeia era das mulheres com mais estilo que já tinha visto. Na minha ingenuidade queria ser um bocadinho como ela: com aquele eyeliner extraordinário, o porte e o leopardo, mas sem o Nero. Depois cresci e comecei a admirar muito mais  Lígia. Adiante.



 Quo Vadis é uma das histórias de amor mais interessantes de sempre...e incrivelmente actual, apesar de se passar na Roma Antiga.

 Não é tanto um conto de amor proibido ou trágico, em que o herói perfeito salva a donzela perfeita e a culpa dos desaires é toda dos maus da fita (neste caso, Nero e companhia). A relação entre Marcus e Lígia é muito mais subtil e bastante mais realista.

Se tirarmos o cenário, as togas, os leões e o circo (esperem, o circo fica, já lá vamos) a paixão de Quo Vadis podia perfeitamente passar-se na nossa época.

 Marcus Vinicius é o típico herói romano: bonito, patrício, sofisticado, estroina, rico e todo vaidoso pelas suas vitórias militares. Em casa de Aulus, um respeitável general reformado, Marcus conhece a encantadora  filha adoptiva deste, Calina, que todos tratam por Lígia por ser na realidade filha do Rei dos Lígios  (um povo lá para as bandas da Polónia) e uma refém de Roma. 



  Marcus é fulminado na hora pela beleza e modéstia da Princesa estrangeira, e a donzela, apesar de intimidada pela basófia e maneiras pouco respeitosas dele, também não lhe fica indiferente. Bastava a Marcus cortejá-la devagarinho, como era suposto, e seriam felizes para sempre. Mas Marcus Vinicius, recordo-vos, é um brutamontes habituado a ter tudo o que quer e estragado pelas más companhias. Que faz, então? Uma vez que Ligia é apenas uma refém - apesar do seu sangue real - decide reclamá-la para si e pronto.

 Não quer saber dos princípios nem dos sentimentos dela para nada: arranca-a aos pais, aos amigos, desrespeita uma família que o recebeu em casa, enfim; faz tudo à sua maneira sem considerar a sensibilidade dela nem o sofrimento que causa. No fundo, ama apenas a beleza exterior, não a pessoa
Acha que a "amada" tem de aceitar as suas condições e doideiras e cara alegre. Não procura conhecê-la por dentro, por isso assume que ela é uma tonta como as outras a quem basta um homem bonito e rico para caírem rendidas, no questions asked.



  Parte do princípio que ela tem de ficar muito honrada com a "distinção" que ele lhe dá e cair-lhe nos braços. Não compreende que Lígia tem uma grande maturidade emocional, logo precisa de alguém com quem seja, bom...compatível. Um homem mais íntegro, menos egoísta e menos doidivanas.

 O que ele não esperava era que Lígia, apesar de  ingénua, lhe opusesse uma resistência heróica, chegando a fugir-lhe: gosta de Marcus e sabe que ele possui, lá no fundo, as mais nobres qualidades e uma bela alma, mas não está disposta a sujeitar-se aos seus caprichos. As recusas de Lígia deixam Marcus à beira da loucura: move mundos e fundos para a convencer, vira Roma do avesso para a encontrar, mas não é capaz de fazer o mais simples e óbvio: portar-se com decência e seriedade, para que ela confie nele

Lígia também comete erros ao longo da história, mas por não entender o quanto Marcus importa com ela: é que com tantos disparates que ele faz, torna-se difícil adivinhar!


É um longo caminho até que Marcus se aperceba de que não apenas deseja Lígia, mas que realmente a ama integralmente, como se deve amar um ser humano...e que o amor dá trabalho. Não basta chegar e tomar o que se quer. Só então ela se rende ao que sente por ele. 



 Quando isso sucede, dá-se aquele milagre do amor verdadeiro, o velho cliché "estar apaixonado faz-nos querer ser pessoas melhores" e Marcus revela toda a nobreza do seu coração, toda a sua verdadeira coragem, sendo capaz dos maiores sacrifícios.

 Mas por essa altura, na sua criancice e egoísmo, já envolveu meio mundo na história (toda a corte de Nero, a Guarda Pretoriana e por aí fora) já complicou imenso a vida a todos os envolvidos, armou literalmente um circo e desencadeou acontecimentos irremediáveis que quase o fazem perder Lígia para sempre. 

Por acaso a história acaba bem, mas podia acabar mal. Como tantas histórias em que os Marcus Vinicius da vida, no seu egoísmo e tonteria, se põem a arranjar complicações, a armar circos e a desperdiçar as suas boas qualidades quando bastava procederem directa e simplesmente, como adultos.


 *(Que poderão ver ou rever na RTP, se tiverem máquina do tempo: passou no fim de semana)

1 comment:

C. N. Gil said...

eu vi e já tinha saudades :)

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