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Sunday, April 5, 2015

Renascer sim, mas...




...é sempre bom lembrar uma coisa que parece óbvia, que se diz imenso mas que raramente se exercita de facto.

É que o passado não volta. Todo o ambiente de Páscoa nos chama para isso. Cada dia é em si mesmo uma novidade, mas este tem - espiritualmente falando - uma dimensão de página em branco mais profunda do que, por exemplo, o Ano Novo. 

  Certo, o Ano Novo promete 365 dias a estrear e na Páscoa o ano já vai a meio, mas ainda mais me ajudam: tempus fugit. E se o tempus fugit e já é curto para as situações de hoje que temos de resolverqual é o sentido de o esbanjar a pensar no tempo passado que já fugiu, sobre o qual já não temos nenhuma influência e que não presta para construir nada que nos sirva?

 Após 40 dias de purificação e recolhimento, de sacrifícios e meditação, de silêncio e contrição, de uma descida interior à escuridão e ao Inferno, é suposto voltarmos mais fortes, limpos e renovados, com as feridas curadas. Mas há quem se recuse a curá-las, mesmo aplicando todos os bálsamos e tendo à mão todos os recursos para eliminar as cicatrizes. Continua a sofrer por hábito, por orgulho ou porque julga que estando sempre alerta isso jamais acontecerá de novo; a zangar-se porque é suposto, a recuar mental e sentimentalmente a coisas que, se já não podem ser alteradas, tão pouco têm o poder de ferir ou incomodar.

Quem age assim é como aquela velhinha que chorava junto a uma fonte de água abundante, a lembrar os dias de seca quando era nova, em que passara muita sede...

Pior: perde, como Orfeu, a oportunidade única, preciosa, de um novo começo, porque está constantemente a olhar para trás

Se pusermos frente a frente a Religião e a Mitologia, surge uma comparação curiosa: Jesus, após mil tormentos, desce à mansão dos mortos, mas ressuscita e segue a sua missão como Deus. Orfeu passa trabalhos terríveis e desce ao inferno para resgatar Eurídice; comove os deuses com o seu desalento e é-lhe dada uma chance, inaudita entre os mortais, de a levar consigo para o mundo dos vivos, de começar tudo de novo. Com uma única condição: não olhar para trás. E que faz Orfeu? Duvida. Olha para trás. Orfeu é um homem de pouca fé.





 Em termos concretos, esses espinhos do passado já não arranham ninguém; estão secos e mortos e não cresceram mais, pelo que não podem enrolar-se nos pés, nem picar, nem fazer tropeçar. É a memória dos espinhos, o recuo mental ao momento em que esses espinhos existiram e magoaram, que continua a causar problemas. Quem assim procede, obriga, por sua vez, quem está a seu lado a viver do passado, a voltar constantemente atrás: a penitenciar-se pelo que poderia ter evitado, pelo que poderia ter feito, pelo que podia ter sido diferente (não há nada pior que a triste suposição do "se ao menos") a andar ainda mais para trás alimentando as memórias boas do que havia ANTES dos tais espinhos.

 Mas nada, bom ou mau, vive do passado. O passado cria bases, forma raízes, determina a solidez das coisas, mas o seu poder termina aí. Nenhuma árvore é linda só porque tem grandes raízes- o que há mais para aí são belas raízes de árvores mortas. Porque lhes faltou a água, porque o terreno se tornou infértil ou foi envenenado, porque lhe cortaram selvaticamente as hastes, ou porque ninguém cuidou delas. Árvores, como pessoas, não se alimentam de memórias. Ninguém vive da fortuna que já gastou. Até pode obter crédito fiado nisso por algum tempo, mas o dia acaba. Ninguém pode beber água parada. 

Podemos fazer mil alegorias para isto, mas a verdade é que por muito glorioso que o que foi tenha sido, esbate-se com o tempo. É preciso continuar a  construir coisas novas e preservar aquilo que ainda se tem. E por muito mau que o que foi tenha sido, também se dilui - por si próprio, e SE for sendo substituído por memórias novas e melhores. Se. Viver no meio de fantasmas e espectros não é vida.
 

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